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Dignidade para as famílias e renda para a economia local

*Claudinei Araújo dos Santos


Esperei passar a eleição, para que talvez tenhamos um debate decente. O Bolsa Família costuma ser discutido a partir do valor recebido por cada família. Entretanto, sua importância ultrapassa o pagamento individual: envolve proteção social, acesso a direitos e circulação de renda. Em Nova Andradina, compreender essas dimensões ajuda a perceber como uma política nacional alcança o cotidiano das pessoas e a vida econômica do município.

Um levantamento preliminar na plataforma notop10 aponta que, em setembro de 2026, Nova Andradina tinha 3.479 famílias beneficiárias, reunindo 9.316 pessoas, com transferências de R$ 2.381.723,00 naquele mês. Como esses números ainda precisam de confirmação direta na base municipal do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, devem ser utilizados com essa ressalva. Mesmo assim, oferecem uma referência inicial sobre a dimensão do programa no município.

Para quem recebe, o benefício representa uma possibilidade concreta de enfrentar necessidades diárias. Comprar alimentos, pagar parte das despesas domésticas e atender às necessidades dos filhos são decisões que ganham outra perspectiva quando existe alguma previsibilidade de renda. O valor pode ser insuficiente para resolver todas as dificuldades, mas pode ampliar a margem de escolha de famílias submetidas a orçamentos muito restritos.

Essa dimensão individual envolve dignidade e autonomia. A transferência de renda permite que a família decida suas prioridades, considerando sua composição e suas necessidades. Uma casa com crianças pequenas, por exemplo, enfrenta despesas diferentes daquelas de uma família com adolescentes. Por isso, olhar apenas para o valor pago, sem considerar as condições de vida de seus integrantes, limita a compreensão do alcance do programa.

No plano social, o Bolsa Família articula a transferência de renda a compromissos nas áreas de educação e saúde. A frequência escolar, a vacinação, o acompanhamento nutricional das crianças e o pré-natal integram essa estrutura de proteção. Seu acompanhamento exige a atuação conjunta da assistência social, das escolas e dos serviços de saúde.

Esses compromissos precisam ser acompanhados de condições reais de acesso aos serviços públicos. Quando uma criança falta à escola ou deixa de realizar um acompanhamento de saúde, é necessário compreender as dificuldades enfrentadas pela família. Transporte, adoecimento e outras situações de vulnerabilidade devem ser considerados no atendimento. A finalidade da política pública deve incluir a identificação de obstáculos e a construção de caminhos para superá-los.

A dimensão econômica também merece atenção. Os recursos recebidos pelas famílias podem ser utilizados em supermercados, mercados de bairro, padarias, farmácias, lojas e serviços. Dessa forma, a renda destinada à proteção social pode contribuir para sustentar a demanda por produtos e o movimento de estabelecimentos comerciais.

Considerando o valor preliminar encontrado para setembro, a manutenção de um repasse mensal semelhante durante 12 meses corresponderia a aproximadamente R$ 28,6 milhões transferidos às famílias residentes no município. Trata-se de uma projeção para demonstrar a ordem de grandeza dos recursos, e não do total efetivamente pago em 2026.

Também é necessário distinguir o dinheiro recebido pelas famílias do valor efetivamente gasto dentro de Nova Andradina. Sem uma pesquisa específica, não é possível afirmar que todo o recurso permanece no município ou quantificar seus efeitos sobre empregos, arrecadação e produção. Ainda assim, a transferência amplia a capacidade de consumo das famílias atendidas e pode favorecer os negócios que fornecem os bens e serviços de que elas necessitam.

Outro aspecto que exige cuidado é a interpretação dos desligamentos. A saída de uma família pode ocorrer por diferentes razões, como aumento da renda acima dos limites de permanência, encerramento da Regra de Proteção, pendências cadastrais ou solicitação voluntária. Portanto, a redução do número de beneficiários, isoladamente, não comprova melhoria de vida nem irregularidade. É preciso conhecer os motivos e verificar a situação das famílias.

Da mesma forma, conseguir emprego não implica necessariamente a perda imediata do Bolsa Família. A Regra de Proteção permite a continuidade parcial do apoio em determinadas situações de aumento de renda, conforme os critérios aplicáveis. Essa transição reconhece que a entrada no mercado de trabalho pode ocorrer em um contexto de instabilidade e que a segurança econômica demanda tempo para se consolidar.

Para Nova Andradina, o desafio é integrar a transferência de renda a oportunidades de trabalho, qualificação profissional, educação, saúde e atendimento socioassistencial. Acompanhar os resultados exige transparência: divulgar quantas famílias são atendidas, quanto recebem, quantas ingressam, quantas saem e quais razões explicam essas mudanças.

O Bolsa Família deve ser avaliado pelo que permite às pessoas realizar e pelas condições que ajuda a construir. Para uma família, pode representar alimento e maior segurança no cotidiano. Para a sociedade, pode fortalecer a proteção diante da pobreza. Para a economia local, pode ampliar a demanda por bens e serviços. Reconhecer essas dimensões contribui para um debate público orientado pelas necessidades da população e pela responsabilidade na aplicação dos recursos.

Fontes para conferência editorial

notop10 — Nova Andradina (MS). Dados municipais de setembro de 2026. https://notop10.com.br/ms/nova-andradina

Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social — Conheça as Regras. https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/bolsa-familia/conheca-as-regras

Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social — Perguntas frequentes sobre o Cadastro Único. https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/cadastro-unico/perguntas-frequentes-cadastro-unico

Caixa Econômica Federal — Perguntas frequentes do Bolsa Família. https://www.caixa.gov.br/programas-sociais/bolsa-familia/perguntas-frequentes/Paginas/default.aspx

*Doutor em História pela Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD

Este texto, não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova. 

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