Nacional & Geral / Saúde
QI das gerações mais novas está caindo? Estudo aponta mudanças na inteligência infantil
Pesquisa realizada com crianças na Turquia identificou redução nas pontuações de testes de inteligência, mas especialistas alertam para limitações dos dados e destacam a influência do ambiente no desenvolvimento cognitivo
Luis Gustavo, Da Redação*
Um estudo realizado com crianças na Turquia entre 2016 e 2021 identificou uma queda nas pontuações de testes de Quociente de Inteligência (QI), levantando questionamentos sobre o desenvolvimento cognitivo das gerações mais novas. Os resultados estão relacionados ao chamado “efeito anti-Flynn”, fenômeno que descreve a redução ou a estagnação dos índices de QI após décadas de crescimento.
A pesquisa, publicada no periódico científico Journal of Theoretical Educational Science, reacendeu o debate sobre os fatores que podem estar influenciando a inteligência e as habilidades cognitivas de crianças e adolescentes.
Durante boa parte do século 20, estudos identificaram um aumento gradual nas pontuações dos testes de QI, tendência conhecida como efeito Flynn. A melhora foi associada a fatores como maior acesso à educação, avanços na nutrição, melhores condições de saúde e mudanças nos estímulos oferecidos durante a infância.
Nas últimas décadas, porém, pesquisas realizadas em diferentes países passaram a identificar sinais de desaceleração ou até mesmo de reversão dessa tendência.
Testes de QI não medem toda a inteligência
Apesar dos resultados, especialistas ressaltam que a pontuação de um teste de QI não representa todas as capacidades intelectuais de uma pessoa.
O neuropediatra Vinícius Spazzapan explica que essas avaliações foram desenvolvidas para identificar habilidades cognitivas específicas, especialmente em crianças com dificuldades de aprendizagem.
Embora sejam úteis em determinadas situações, os testes não conseguem avaliar integralmente características como criatividade, imaginação, habilidades motoras e capacidade de resolver problemas cotidianos.
Por isso, uma redução nas pontuações não significa, necessariamente, que as novas gerações estejam se tornando menos inteligentes.
A avaliação do desenvolvimento infantil exige uma análise mais ampla, que considere as particularidades de cada criança e as condições em que ela cresce.
Excesso de telas e sedentarismo entram no debate
O uso frequente de celulares, computadores e outros dispositivos eletrônicos também aparece nas discussões sobre o desenvolvimento cognitivo infantil.
O sedentarismo e a diminuição das atividades físicas são preocupações adicionais, especialmente quando as crianças passam longos períodos diante das telas e têm menos oportunidades de explorar o ambiente, brincar e interagir presencialmente.
Entretanto, não é possível afirmar que o excesso de telas ou o sedentarismo sejam responsáveis diretos pela redução das pontuações de QI identificada em determinados estudos.
O desenvolvimento cerebral envolve uma combinação de fatores físicos, emocionais, sociais e ambientais. A qualidade das experiências vividas durante a infância pode influenciar diferentes habilidades, incluindo a aprendizagem e o raciocínio.
Estudo apresenta limitações
A secretária da Mensa Brasil, Patrícia Schneider, que também atua nas áreas de psicologia, neuropsicologia e neuropsicopedagogia, chama a atenção para as limitações da pesquisa realizada na Turquia.
Segundo ela, o levantamento envolveu apenas três escolas de uma mesma cidade e comparou grupos diferentes de crianças ao longo dos anos.
A ausência de análises estatísticas mais robustas também limita a segurança das conclusões, tornando inadequado generalizar os resultados para todas as crianças ou afirmar que existe uma queda global da inteligência humana.
A especialista também destaca que fatores como interrupções escolares, mudanças nas experiências de aprendizagem e redução das oportunidades de socialização podem influenciar o desempenho das crianças em avaliações cognitivas.
A pandemia de Covid-19, por exemplo, provocou alterações importantes na rotina de estudantes em diversos países. No entanto, não seria cientificamente correto atribuir exclusivamente à pandemia uma eventual redução nas pontuações dos testes.
Como estimular o desenvolvimento cognitivo das crianças?
Para favorecer o desenvolvimento infantil, especialistas recomendam ampliar as oportunidades de aprendizagem e oferecer experiências variadas dentro e fora de casa.
Entre as medidas sugeridas estão:
-
Incentivar a leitura: livros ajudam a desenvolver a linguagem, a interpretação e a imaginação.
-
Estimular brincadeiras longe das telas: jogos, desenhos e atividades manuais favorecem a criatividade e a resolução de problemas.
-
Praticar atividades físicas: o movimento contribui para o desenvolvimento corporal e amplia as experiências de aprendizagem.
-
Participar da rotina infantil: a interação com os pais e responsáveis fortalece vínculos e proporciona estímulos importantes.
-
Promover experiências sociais e culturais: visitas a parques, museus, praças e outros espaços ampliam o contato das crianças com diferentes ambientes.
A participação dos pais é considerada especialmente importante. Mesmo quando utilizam recursos digitais com os filhos, os adultos podem transformar esse momento em uma experiência compartilhada, conversando sobre o conteúdo e estimulando perguntas.
Superdotação também exige avaliação cuidadosa
Os especialistas ressaltam que a inteligência não deve ser analisada exclusivamente com base no desempenho escolar ou em uma única pontuação.
Em junho de 2026, a Mensa Brasil informou ter identificado cerca de 7 mil brasileiros com superdotação, dos quais aproximadamente 3,1 mil eram crianças e adolescentes e 3,9 mil, adultos.
A superdotação não significa que uma pessoa tenha desempenho excepcional em todas as áreas ou que não apresente dificuldades de aprendizagem e desafios emocionais.
Também é possível que indivíduos com altas habilidades apresentem condições como Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), autismo ou transtornos específicos de aprendizagem.
Por isso, a identificação dessas características depende de avaliações apropriadas, realizadas por profissionais qualificados.
O debate sobre a possível queda do QI entre as gerações mais novas reforça a importância de compreender a inteligência como um fenômeno complexo. Mais do que observar números isolados, é necessário investigar as condições de saúde, educação, nutrição, convivência e estímulo intelectual que contribuem para o desenvolvimento das crianças. *Com informações da CNN.
Cobertura do Jornal da Nova
Quer ficar por dentro das principais notícias de Nova Andradina, região do Brasil e do mundo? Siga o Jornal da Nova nas redes sociais. Estamos no Twitter, no Facebook, no Instagram, Threads e no YouTube. Acompanhe!






