Os passos do homem são melancólicos, sua cabeça está baixa, a única coisa que seus olhos enxergam é a calçada da movimentada cidade. Ele anda sem rumo, não há um lugar para chamar de lar. A não ser, talvez, sua caixa de papelão, que é o mais próximo que ele tem de uma casa.
As pessoas esbarram nele, mas parecem não o enxergar; é como se o homem fosse um fantasma — às vezes ele tinha a sensação de que estavam olhando através dele. Em alguns momentos, ele se sente apenas como um obstáculo a ser contornado.
— Presta atenção, babaca! — diz um transeunte que acabou de esbarrar no homem de andar deprimido, sem ao menos o olhar.
— Perdoe-me! — responde ele, com uma voz arranhada de quem usa pouco as cordas vocais. O transeunte pouco se importa com o pedido de desculpa e continua seu caminho.
Os motivos que lhe trouxeram para essa vida de andarilho são marcados por uma trágica experiência. Ele não era um homem rico que perdeu sua fortuna e família por dívidas astronômicas ou apostas em cassinos. Ele não era usuário de drogas. Ele era apenas um sujeito comum, fazendo coisas cotidianas. A causa que o desestabilizou foi um acidente que ocorreu no ano de 2007 e, mesmo tendo passado tantos anos, a mínima lembrança ainda faz a ferida queimar como brasa. Na ocasião, ele estava voltando da escola onde seus dois filhos — um menino e uma menininha — estudavam, apressado como todos estão numa cidade assim tão grande e agitada. O homem se recorda de que sua filha contava alegremente das brincadeiras feitas em sala de aula, quando um carro avançou sobre a calçada e atropelou os três. Ele ficou em coma por quase seis meses. Quando acordou, descobriu que seus filhos haviam morrido com o impacto e sua esposa, com a dor e desespero do luto, cometeu suicídio.
Desde que acordou, sua vida foi descarrilhando. Ele não conseguia mais trabalhar, mal conseguia dormir. As contas chegaram, e junto veio o despejo. Ao menos na rua ele está sempre andando, o que ajuda a diminuir um pouco o sentimento de inércia que habita nele.
O andarilho para em um chafariz e pega umas moedas que estão lá dentro. A quantia é suficiente para um pão. Às vezes ele fica dias sem comer. Quando seu estômago se retorce pela necessidade de alimento, ele recorre ao lixo, mesmo não gostando da comida azeda que encontra por lá; ainda assim é melhor do que morrer de fome.
Após comprar seu pão, ele senta no banco do parque e observa as crianças brincando, enquanto os pais parecem agitados, olhando a todo momento para o relógio. Para o homem, a cidade grande faz isso com você, faz parecer que cada instante é tão valioso que não pode ser desperdiçado com um simples descanso.
Por um momento, observando as crianças sorridentes, vêm à sua mente seus filhos. Ele não chora, não porque tenha superado o que passou, é que há um vazio tão imensurável dentro de si que consome qualquer tristeza, ou melhor, qualquer sentimento que ele por ventura possa ter.
Ele já pensou em tirar sua vida, dar um fim nessa falta de sentido. Não conseguiu; a imagem de seus lindos filhos e sua esposa veio à sua cabeça, como um sussurro, pedindo que ele não fizesse isso, que aguentasse o quanto pudesse.
Por isso o homem ainda não deu um fim à sua existência, não porque gosta de viver, mas porque morrer significa que não haverá mais ninguém para se lembrar deles.
*Formado em psicanálise pelo Instituo Brasileiro de Psicanálise Clínica, atua como psicoterapeuta e é pós-graduado em Psicologia Organizacional
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova.
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