Pais ainda veem palmada como disciplina, aponta estudo do Unicef

Levantamento ouviu 214 pessoas em comunidades vulneráveis de Rio de Janeiro, Recife e Manaus e identificou a naturalização do castigo físico na educação infantil

Luis Gustavo, Da Redação*


Um estudo divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) aponta que parte dos pais, mães e cuidadores ainda considera a palmada uma forma de disciplina, e não uma prática de violência contra crianças. A pesquisa ouviu 214 pessoas em comunidades de Rio de Janeiro, Recife e Manaus, com foco principalmente na primeira infância, até os 6 anos. 

 

Segundo o levantamento, muitos responsáveis fazem uma distinção entre a palmada ou a chinelada e agressões consideradas mais graves. A pesquisadora Luiza Teixeira, especialista de Proteção à Criança do Unicef no Brasil, afirma que algumas famílias sequer reconhecem o tapa como violência e o interpretam como uma maneira de educar e impor limites. 

 

A pesquisa reuniu 123 participantes no Rio de Janeiro, 37 no Recife e 54 em Manaus. Entre os entrevistados estavam pais, cuidadores e lideranças comunitárias de regiões marcadas por vulnerabilidade social e violência. 

 

O estudo também identificou que muitos pais têm dificuldade para encontrar alternativas de disciplina sem recorrer à violência. Em situações de birra, algumas reações acontecem de forma impulsiva e são seguidas de arrependimento.

 

Outro ponto destacado pelo Unicef é que a educação dos filhos ainda costuma ser encarada como um assunto privado, o que pode contribuir para o silenciamento da comunidade diante de situações de violência. A instituição também identificou dificuldades na capacitação de profissionais da rede de proteção e no acesso das famílias aos serviços públicos. 

Lei Menino Bernardo

A pesquisa também chama atenção para o desconhecimento da Lei Menino Bernardo, conhecida como Lei da Palmada, que completou 12 anos. A legislação estabelece o direito de crianças e adolescentes serem educados sem castigos físicos ou tratamento cruel ou degradante e integra o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). 

 

Para o Unicef, além da resposta aos casos já registrados, é necessário ampliar ações preventivas, capacitar profissionais e desenvolver campanhas que orientem as famílias sobre formas de estabelecer limites sem violência.

 

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública citados pela Agência Brasil apontam que, em 2025, foram registrados mais de 60 mil casos de maus-tratos ou lesão corporal em contexto de violência doméstica contra crianças e adolescentes no país, número 106% superior ao registrado em 2024. 

 

Orientação durante as birras

Especialistas ouvidos na reportagem destacam que crianças pequenas ainda estão desenvolvendo mecanismos relacionados ao controle dos impulsos, tolerância à frustração e autorregulação emocional.

 

A pedagoga Marília Paiva orienta que, diante de uma situação de desregulação, o adulto primeiro controle as próprias emoções, depois acolha e valide o sentimento da criança, estabeleça limites e, somente quando ela estiver mais receptiva, explique o comportamento esperado.

 

A psicóloga infantil Mara Gomes também defende que os adultos acolham as emoções das crianças e estabeleçam limites por meio do diálogo. Para os especialistas, compreender a birra como uma forma de comunicação pode ajudar os responsáveis a lidar com os conflitos sem recorrer ao castigo físico. *Com informações da Agência Brasil.

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