Heróis no divã: Batman

*Felipe Pereira


Era uma tarde comum quando um personagem ilustre apareceu no meu consultório; não sei os motivos que o levaram até ali.

Apesar do calor, ele trajava seu uniforme de herói; parecia abafada aquela fantasia preta de couro. Ele ficou parado na porta, calado. Eu não sabia se ele estava aguardando um convite meu para ele se sentar ou se estava decidindo ir embora.

Por fim, educadamente eu disse:

 — Não quer se sentar?

Ainda calado, o herói deitou-se no meu divã. Ele fitava atentamente o teto quando disse:

— O trinco da sua janela está quebrado, pode ser um problema.

Aparentemente, ele havia escaneado a sala inteira; e, sobre esses problemas, eu não sabia de quais tipos ele se referia, mas aproveitei a oportunidade para iniciar o processo de terapia com o herói encapuzado

— Há muitos problemas dos quais você se previne?

— Olhe ao redor, o mundo é um lugar perigoso, é preciso estar preparado para qualquer situação.

 — É por isso que você veste essa fantasia?

 — A única fantasia que eu visto é a do herdeiro filantropo.

 — E essa máscara que cobre seu rosto é sua verdadeira face?

 — A máscara de Batman é o meu rosto!

 — E a face do herdeiro filantropo?

Batman ficou quieto, nem por um momento seu olhar se desviou do teto. Seu silêncio durou cerca de cinco minutos. Senti que eu precisava sustentar a quietude dele, mesmo estando desconfortável com a atmosfera densa que o herói causava. Era preciso passar no seu teste para conseguir a sua confiança.

Transcorridos os cinco minutos, Batman disse:

 — Ele é fraco, uma imagem pública necessária, apenas um disfarce.

 — No entanto, sem ele, seria possível existir o Batman?

 — O Batman nasce nas rachaduras do Bruce, mas ele não é o Bruce.

 — Interessante você dizer isso. Em que momento essas rachaduras deram origem ao Batman?

O herói novamente calou-se, entretanto, parou de fitar o teto e olhou diretamente para mim.

 — Quando as pérolas do colar da minha mãe tocaram o chão e seu corpo caiu com um baque, quando os disparos atravessaram meu pai. Foi ali que nasceu o Batman, porque havia algo de errado com o mundo e era preciso alguém forte para colocá-lo no caminho certo.

— O que te credencia a ser o escolhido para consertar o que há de errado?

— Eu tenho os recursos.

— É um fardo e tanto, não?

— Ainda assim é preciso que alguém o carregue.

— E qual o custo disso?

— Alto! Porém, para que outra criança não precise chorar, eu estou disposto a pagá-lo.

— É assim que você enxerga o Bruce, como uma criança que chora?

O semblante do herói desfaleceu, então prossegui:

— Por isso você criou a figura do Batman? Por temer essa criança?

Batman levantou-se do divã e se encaminhou para a porta. Ainda de costas e sem olhar para trás, ele falou:

— Você está certo, sou um homem quebrado e traumatizado. Mas me consertar seria pior para a humanidade.

Essa foi a última vez que ouvi a voz do Batman.

*Formado em psicanálise pelo Instituo Brasileiro de Psicanálise Clínica, atua como psicoterapeuta e é pós-graduado em Psicologia Organizacional

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova. 

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