Um homem atormentado

*Felipe Pereira


Os pés de Finn doíam na volta para casa. O frio de Amsterdã cortava sua pele; ele apertou mais o casaco contra o corpo. Ele poderia ter tomado um táxi, mas preferiu organizar os pensamentos caminhando. Ele sempre caminhava quando sua mente estava uma confusão.

Foi um dia de merda para Finn; o gerente da empresa na qual ele estava há mais de cinco anos o comunicou de que ele não fazia mais parte dos planos da companhia. Isso o deixou desnorteado; ele não fazia ideia do que faria a partir daquele momento, ainda estava pagando um empréstimo que contraiu para ter sua própria casa. Não era uma casa grande; ainda assim, era melhor do que nada. Ele não tinha pressa; afinal, não teria para onde ir amanhã ou depois.

Finn parou para descansar na Ponte Magra; por muito tempo, ele apenas encarou a água, viu alguns barcos cruzando o canal. Fazia muito tempo que não reparava o quanto Amsterdã era bela. Quando criança, ele se admirava quando passeava no centro da cidade; ele conseguia sentir a vibração dos veículos em seus ossos. Entretanto, conforme os anos foram passando, sua admiração foi se esgotando. Para Finn, a vida era isso: ir perdendo o encanto conforme as contas batiam à porta, ir deixando a inocência morrer juntamente com os sonhos que ficavam cada vez mais distantes. Às vezes Finn ainda sorria tristonho ao se recordar do quanto ele idealizava seu futuro; em sua cabeça jovem, ele seria um rei. No entanto, aqui estava ele, na Ponte Magra, refletindo sobre a demissão e as despesas que não toleram atrasos.

Com a cabeça doendo, o homem se perguntou onde as coisas fugiram do seu controle. A demissão, pensando agora, não foi exatamente uma surpresa; ele socou um colega de trabalho, o miserável mereceu; havia tempo que Finn engolia os desaforos recebidos, as cobranças desmedidas, as humilhações. Como no dia em que o colega disse para ele arquivar mais de 1.500 papéis e no fim descobriu que eram apenas rascunhos que deveriam ir para o lixo, Finn nunca se sentiu tão ridicularizado. O problema era que o infeliz era seu supervisor, um tipinho arrogante e metido a dono da empresa. O gerente, outro serzinho medíocre, se doeu pelo amigo ferido. Óbvio que Finn esperou ter retaliações, mas não imaginou que seria de imediato uma demissão, talvez uma suspensão. Quando o gerente o chamou para comunicar sua decisão, Finn apenas respondeu:

— Vá à merda, você e essa droga de empresa! Estou no limite com todos vocês. — Virou-se e saiu.

Rememorando agora sobre o acontecido, até que ele conseguiu sorrir um pouco com a ousadia. Seria difícil achar um trabalho que pagasse minimamente decente. Apesar das amolações, a firma pagava um salário um pouco melhor do que as concorrentes.

O homem sobre a Ponte Magra puxou um cigarro do bolso, encarou-o longamente antes de fumá-lo. Realmente a vida adulta era um grande talvez; havia tempo que um sorriso sincero não aparecia em seu rosto. Para Finn, ainda havia cores na cidade, mas ele não tinha ímpeto para admirá-las; às vezes ele somente achava que estava existindo.

— As coisas são como são! — ele repetiu baixinho a frase que o pai sempre dizia quando algo ia mal.

Após terminar seu cigarro, o homem retomou sua caminhada; ainda faltava uma boa distância a percorrer. Ele não sabia se era um homem quebrado; de vez em quando pensava que sim, mas sempre se justificava dizendo a si mesmo: “afinal, quem não está quebrado também?”. Os pensamentos de Finn eram complexos. Em alguns momentos, ele sentia que sua existência era somente uma tragédia ou piada de mau gosto de algum deus brincalhão; em outros, ele ainda mantinha a esperança de que talvez a sorte iria agraciá-lo com uma recompensa por tantos percalços.

*Formado em psicanálise pelo Instituo Brasileiro de Psicanálise Clínica, atua como psicoterapeuta e é pós-graduado em Psicologia Organizacional

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova. 

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