Cidades & Região / Nova Andradina
A galinha dos ovos de ouro e o teatro da falsa desistência
*Sandro de Almeida
Nos bastidores da política, há quem se considere tão indispensável que já não se apresenta como simples aliado, liderança ou candidato. Prefere posar como a própria “galinha dos ovos de ouro” do governador, como se carregasse sozinho nas costas o peso de um projeto inteiro.
A cada véspera de convenção partidária, o roteiro se repete com impressionante falta de criatividade. Primeiro, espalham-se rumores de desistência. Depois, surgem os lamentos, as conversas reservadas, os recados enviados por terceiros e aquela velha encenação de quem supostamente não quer disputar nada, mas faz questão de que todos implorem por sua permanência.
É o conhecido jogo do “não quero, mas me convençam”.
Ninguém minimamente atento acredita que seja apenas dúvida pessoal. Na política, especialmente às portas das convenções, quase toda desistência anunciada tem endereço, preço e objetivo. O drama público costuma esconder uma negociação privada. Enquanto a plateia acompanha a suposta crise existencial, nos corredores correm as cobranças por espaço, estrutura, prestígio e garantia de sobrevivência política.
O personagem tenta vender à imprensa a imagem de perseguido, injustiçado ou desprezado. Faz pose de coitado diante das câmeras, mas nos bastidores age como negociador experiente, disposto a elevar o tom sempre que percebe que suas exigências podem não ser atendidas.
De vítima, portanto, pouco tem. De articulador interessado em preservar o próprio território, tem de sobra.
A tática é antiga: criar instabilidade para parecer necessário. Quanto maior o barulho em torno de uma possível saída, maior a tentativa de convencer o grupo de que sua ausência provocaria uma tragédia eleitoral.
É a política do ultimato disfarçado de sofrimento.
Quem compra essa narrativa? Os mesmos fiéis de sempre. Uma pequena tropa de bajuladores, meia dúzia de gatos-pingados espalhados pelos cantos, encarregados de repetir que sem ele nada funciona. São vozes que confundem lealdade com submissão e proximidade com importância.
O problema da bajulação é que ela distorce a realidade. De tanto ouvir elogios de quem depende de sua sombra, o político começa a acreditar que realmente é maior do que o partido, mais importante do que o grupo e absolutamente imprescindível ao governador.
Não é.
Na política, ninguém é insubstituível. Existem conveniências momentâneas, alianças circunstanciais e lideranças com prazo de validade. O poder que hoje alimenta a vaidade pode amanhã mudar de endereço sem pedir licença.
Nas oxítonas da vida, a última sílaba é a mais forte. Na política, esse personagem também gosta de imaginar que sempre terá a última palavra. Quer ser a sílaba tônica de qualquer composição, mesmo quando já perdeu o acento, a força e, principalmente, a credibilidade.
Talvez ainda não tenha percebido que o público conhece o enredo. A falsa desistência, o suspense fabricado e o pedido indireto de reconhecimento já não surpreendem ninguém. Quando a encenação se repete demais, deixa de ser estratégia e vira caricatura.
No fim das contas, a verdadeira galinha dos ovos de ouro não é o político que se apresenta como indispensável. É a máquina pública, disputada por quem deseja influência, cargos e permanência no poder.
E o governador deveria saber: quem ameaça quebrar o ninho sempre que não recebe o tratamento que deseja talvez nunca tenha estado preocupado com os ovos. Apenas com a parte que julgava ser sua.
*Diretor do Jornal da Nova
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova.
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