A mensageira

*Felipe Pereira


O sol estava escaldante, uma brisa morna soprava vinda do mar logo abaixo do desfiladeiro. Uma relva verde cobria o chão. As águas arrebentando nas rochas criavam uma sinfonia apaziguadora.

Baruch contemplava pacificamente esse cenário. Para se proteger do sol, ele se abrigou embaixo de uma árvore. Seus pensamentos divagavam, iam e voltavam como as ondas que caminhavam no mar.

Era um dia perfeito; a mente de Baruch sentia-se em paz. Paz esta que contrastava com seu corpo moribundo; uma doença rara corroía seu corpo. Alguns dias ele sentia uma dor tremenda; em outros, a dor era mais suportável. A medicina ainda não fora capaz de inventar um remédio para aliviar seu sofrimento. No entanto, apesar de toda a dor, Baruch ainda conseguia manter-se sereno diante desse caos. Alguma coisa dentro dele dizia que, quando o corpo padece, a alma sonhadora continuava a voar.

O melhor remédio para o sofrimento de Baruch era essa vista divina que ele agora contemplava. Ele não era ingênuo, sabia que não iria viver muito mais. As pessoas em sua vila olhavam para ele como se olhassem para um morto que esqueceu de cair na cova. Ele não se importava; para Baruch, muitas daquelas pessoas também haviam morrido de certa forma. Com essa paz em seu espírito, Baruch fechou os olhos e permitiu ser vencido pelo esforço de chegar até ali.

Quando abriu seus olhos, o sol já havia partido; um céu estrelado era a nova paisagem à sua frente. Porém, Baruch não estava sozinho. Uma mulher ao seu lado olhava silenciosamente o céu noturno. Ele não se assustou quando percebeu a visitante; na verdade, o que ele sentiu foi a sensação de algo familiar, como se já a tivesse encontrado antes, muitas vezes antes, apesar de jurar nunca a ter visto em sua vila.

— Quem é você? — indagou ele.

— Uma velha amiga. — A mulher sorriu. Por um breve instante, Baruch poderia jurar que seu sorriso era um reflexo do sol, como se toda uma eternidade existisse naquele brilho.

— Eu não me recordo de você.

— Não nessa vida.

— Como assim “nessa vida”?

— Já nos encontramos antes, nesse mesmo momento. — A mulher era simpática, sua voz transmitia uma calmaria.

— Quem é você? — Baruch perguntou novamente.

— A Morte. — A mulher falou com uma leveza que não causou pânico em Baruch.

— A Morte! — ele repetiu baixinho para si. Baruch saboreou aquela palavra: “Morte”. Aquela mulher à sua frente era a mensagem clara de que sua vida terminara.

O homem que agora se encontrava diante da Morte sorriu. Ele sabia a resposta dessa sensação familiar; ele já encontrara a mulher antes, incontáveis vezes. Ele tomava conhecimento desse fato com uma certeza que não deixava margem para dúvidas. A convicção o acertou com uma luz tão forte que ele não percebeu que o sol havia voltado. O vento morno voltou, e a mulher continuava ao seu lado. Baruch reparou que o cabelo dela era negro como a noite e, sim, era isso mesmo, haviam estrelas brilhando em seu cabelo. 

— Para onde vou dessa vez? — ele interpelou a Morte.

— Para a próxima jornada. Cabe a mim apenas ser a ponte.

— Será uma boa vida?

— Isso depende de você. No fim, o que importa é como estará sua consciência e o quanto de culpa e remorso você terá quando deitar-se para dormir. Alguns vivem no luxo e se perdem diante da riqueza material; outros fazem um bom aproveito disso. Aqueles que nascem com pouco podem lamentar sua miséria ou buscar um motivo para continuar vivendo.

— Não há garantias? — Baruch fez essa pergunta mais para si do que para a Morte.

— Nunca houve. Nem mesmo esse sol sabe se viverá para cumprir seu destino amanhã. Tudo se transforma, nada dura para sempre. Um dia irei apagar as luzes dessa existência e repousar até que o próximo Universo chegue e tudo recomece.

— Cansativo, não?! — Baruch perguntou com sincera curiosidade.

A Morte sorriu e falou com mansidão:

— Ah, não. Isso é maravilhoso!

Ela estendeu a mão para Baruch e, com o coração em paz, ele a aceitou. Pela última vez, ele contemplou a linda paisagem que por muito tempo foi seu lar. Com um sorriso saudoso, ele disse adeus para essa sua vida.

*Formado em psicanálise pelo Instituo Brasileiro de Psicanálise Clínica, atua como psicoterapeuta e é pós-graduado em Psicologia Organizacional

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova. 

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