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O Voo da Flecha: Homenagem a Pai Cido – Domingos Aparecido Gonçalves (09/02/1958 – 16/12/2025)
*Igor Vitorino da Silva
Quando uma árvore tomba na floresta, o estrondo é ouvido por todos, mas o silêncio que se segue é o que permite à terra sentir o peso de sua ausência. A partida de Pai Cido é esse silêncio preenchido por memórias, histórias e saudades. Para a Umbanda, a morte não é o apagar da luz, mas o momento em que a vela se transforma em sol. Pai Cido não se despede; ele se transmuta e se encanta em mais um encanto. Deixa de ser o corpo que caminha na Avenida Moura Andrade para se tornar o vento que sopra nas penas do Caboclo Ubirajara. Zambi o recebe em festa, pois um guerreiro que lutou pela dignidade humana e pela fé nunca chega de mãos vazias ao Orum.
O ocaso de Pai Cido mexe com minha memória, leva-me aos tempos de infância humilde, no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, morando num beco no Bairro Vasco da Gama, em Cariacica, limite com o município de Vila Velha, na região metropolitana de Vitória. Éramos considerados os párias do bairro, e o beco, lugar de perigos, desordem e má reputação moral, como os quilombolas, ali era visto como esconderijo dos marginais que trabalhavam no Mercado Vila Rubim.
Foi naquele beco da Palmerinda, de boas memórias e de traumas comuns a todos os brasileiros e todas as brasileiras, que surgiu minha consciência ética hegeliana. Aprendi que o saber da época era composto por conceitos fundamentais da modernidade: empatia, ecumenismo, tolerância e interculturalidade. Lembro-me como se fosse hoje dos círculos bíblicos da Igreja Cristo Operário no quintal do Beco da Palmerinda; lembro-me de como dormia ouvindo o batuque dos terreiros e de como era convidado para as festas de Cosme e Damião para comer as galinhas pretas assadas para Exu.
Eram tempos sem preocupações com fronteiras ou com a conquista de fiéis — pelo menos na minha quebrada ou terra de nascimento, não havia ainda o medo irrigado das religiões de matriz africana. Convivi com evangélicos, procissões católicas e benzeduras; tudo me informava sobre a importância não de escolher polos, mas de não acreditar que um deles seria o único e verdadeiro. Desde criança, experimentar os preconceitos e a discriminação na pele, no corpo, nos olhos e nas palavras sempre me pareceu algo escandaloso e obsceno: toda generalidade e uniformidade, toda negação de visibilidade e universalidade ao corpo pobre, periférico e negro.
Carreguei toda essa tradição de infância por onde andei. Não consigo abandonar Maria, São Benedito, Jurema, que também era o nome da minha benzedeira Beco da Palmerinda. Nunca me esquivei da minha consciência ética que foi ainda mais alimentada pela consciência crítica da pesquisa histórica e pelo meu lugar de fala como historiador e docente (crítica, acolhida, mediação e compreensão), quando descobri que nas origens dos pais havia de tudo: os primeiros evangélicos, ancestrais da matriz afro-brasileira e, também, as tradições de piedade católica.
Deve-se reconhecer que nossa origem mesmo colonizada, excludente e hierarquizada foi marcada por violências, massacres e destruições envolveu, também com todos os desafios, práticas religiosas plurais, diversas, rivais e sincréticas, todas se envolveram em processo de reinvenção, reconstrução, conflito e negociação. Sim, eu era híbrido cultural e religioso, não conseguia me fechar na ideia de que existiria uma fé verdadeira, prefiro a diversidade pluralizada ou pluralismo religioso, sou um ser de entrecruzilhada, mestiço, mesclado, sincrético, híbrido e intercultural.
Em Nova Andradina, vi e revi toda essa experiência de infância e juventude, especialmente pesquisando: estudei as origens das tradições religiosas afrodescendentes que chegaram com a colonização, mesmo sem direito ao espaço público ou à consideração, elas se formaram e resistiram nas brechas do coração e da fé. São muitos nomes que não decorei, mas que se mantiveram e transmitiram a fé e fundaram terreiros e casas espíritas. Estes, infelizmente, que se encontram na memória local e nas documentações que sobreviveram à fome do tempo e ao racismo religioso.
Os historiadores e as historiadoras nova-andradinenses Claudinei Araújo Santos e Maria Ivone Defaveri do Carmo, formados e formadas no curso de História da UFMS/Campus Nova Andradina, ao estudar a formação religiosa local e o catolicismo popular respectivamente, especialmente o catolicismo, deixaram bem claro que há e havia um vazio historiográfico em torno das demais religiões vindas com os colonos, especialmente as de matriz afro-brasileira.
Um desses distintos e proeminentes baluartes da luta pela manutenção da fé religiosa das tradições de matriz africana foi o Pai Cido e sua linda e querida família: acolhedora, vibrante e apaixonada pela adoração aos orixás e a todas as entidades da Umbanda. Pai Cido era meu afilhado — ele e sua esposa Marilza Cruz Xavier. Tive a honra de participar de seu casamento em pleno terreiro lotado. Foi a Mãe Marilza quem cedeu a grande estátua do Caboclo Tupinambá para o Laboratório de Ciências Humanas Orduá, coordenado por este professor, estátua esta que retornou à sua casa quando deixei o Campus Pinhais para novas aventuras.
As últimas batalhas de Pai Cido foram marcadas por sua força, destemor e coragem, inclusive na política que tanto amava, onde atuou como grande militante do diretório municipal do Partido dos Trabalhadores, na defesa das religiões de matriz africana e no Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial e Cidadania – COMPIRC como presidente. Pai Cido estava sempre resolvendo algum problema social, espiritual ou político: não havia tempo ruim para ele, como podemos afirmar em linguagem popular. Era comum avistá-lo na minha querida Avenida Moura Andrade, sempre a caminho de algum lugar. Como pai de santo, foi rigoroso e apegado às tradições; nunca quis abusar do seu poder e sempre tinha uma palavra de orientação, guia e ensino. Tinha paciência para ouvir e construir soluções ótimas para todos e todas.
Pai Cido não morreu, Pai Cido se eternizou. Hoje, ele é, de fato, o nosso grande Preto-Velho chegando em Zambi e orando por nós. Que Xangô salve sua casa e todos os caboclos guiem a família que fica, especialmente sua esposa, filha, neta e os filhos e filhas de terreiro e santo. E que todos os filhos das encruzilhadas lhe abram todos os caminhos para honrar e engrandecer essa tradição religiosa que não pode desaparecer em Nova Andradina.
Não podemos deixar de combater o racismo religioso, pois quem professa uma religião predominante e dominante toma a si mesmo como autoevidente e natural; já quem vive na dissidência e na emergência precisa todos os dias — infelizmente e às vezes perdendo a paciência — explicar ao mundo por que existe e por qual razão cultua outros deuses, como se isso fosse um contrassenso ou uma irracionalidade. Foi essa realidade que Pai Cido viveu e afrontou todos os dias de sua vida, até este dia do adeus mortal.
A história, no entanto, não se encerra com o luto; ela se renova no compromisso de continuar a obra teológica, política e moral cidoniana. O legado de Pai Cido agora repousa sobre os ombros de sua família e sobre o solo sagrado do Terreiro de Umbanda Caboclo Ubirajara. Exaltamos o homem que foi ponte entre a política e a espiritualidade, provando que a fé e a justiça social caminham de mãos dadas. À esposa, à neta à filha e aos membros do congá, herdeiros desse axé, cabe a missão de manter as portas abertas e o atabaque vibrante. Que a coesão, humildade e comunhão desta família sejam o alicerce para que o Terreiro continue sendo um quilombo de resistência contra a intolerância e território da caridade, cura, orientação e proteção.
Continuar o trabalho de Pai Cido é garantir que o Caboclo Ubirajara continue lançando suas flechas de cura sobre Nova Andradina. O mestre se tornou ancestral, e sua família é agora o altar vivo de sua imortalidade. Saravá, Pai Cido! O Senhor nos deixou "Em Busca de um Ninho" para lembrar do título do livro de poesia do poeta nova-andradinense Claudio Aparecido da Silva (31 de março de 1971 — 19 de março de 2018), que também nos deixou órfãos, sem tempo para despedidas e abraços.
Descansem em paz e na luz de Oxalá, no seu santo novo lugar na encantaria onde estará cantando o Terreiro Grande interpretado pela cantora Janaina Reis como aparece no Youtube.(https://www.youtube.com/watch?v=K-Nw_5DVdAw&list=RDK Nw_5DVdAw&start_radio=1). Ogum/São Jorge continuará a te guiar onde quer que esteja nosso mais novo Preto Velho de Aruanda. E seus amigos e filhos que aqui ficaram se despedem com algumas palavras cheias de saudade e axé no Instagram da Fundação Nova-Andradinense de Cultura-FUNAC(@)funacnovaandradina), tais como Juliana Zampiere que comentou:”Que seja lindo seu encontro com a ancestralidade, que o Terreiro Caboclo Ubirajara seja amparado pela espiritualidade pra que todos consigam lidar com a saudade.... Sentiremos muita falta das conversas e dos ensinamentos(ju.zampieri.tef).”
Seguindo no mesmo sentimento de luto, mestre Alex Pires lamenta: “Meus sentimentos a toda família e amigos, conheci Cido uma pessoa querida!!!”. Por fim, se destaca no instagram do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial e Cidadania – Compirc (@coorpirc01) no qual foi liderança combativa contra o racismo religioso e manteve firme na defesa da igualdade social e da diversidade religiosa: “A COOPIRC comunica o falecimento de Domingos Aparecido Gonçalves, Pai Cido, atual Presidente do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial, grande líder religioso e defensor das políticas públicas de Igualdade Racial, militante na luta pelo fim da intolerância Religiosa.”
*Professor de História, mestre em História e colaborador da Agência Nacional Favelas e me.
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova.
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