IBGE: 20% dos moradores de favelas vivem em áreas sem acesso a ambulâncias e caminhões

Apenas 62% moram em ruas com capacidade para ônibus e caminhão

Luis Gustavo, Da Redação*


Para 3,1 milhões de moradores de favelas brasileiras, receber uma ambulância na porta de casa ou contar com a passagem regular do caminhão de lixo é algo praticamente impossível. O motivo é simples e alarmante: essas pessoas vivem em vias tão estreitas que só permitem o trânsito de motos, bicicletas ou pedestres.

 

Os dados, divulgados nesta sexta-feira (5) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), fazem parte do suplemento Favelas e comunidades urbanas: características urbanísticas do entorno dos domicílios, produzido a partir do Censo 2022. O levantamento revela que 19,1% dos moradores de favelas vivem em vias inacessíveis a veículos maiores — proporção muito superior à registrada fora das comunidades, onde apenas 1,4% da população enfrenta essa limitação.

Vias estreitas e dificuldade de acesso a serviços

Segundo o IBGE, 93,4% das pessoas que vivem fora de favelas residem em ruas capazes de receber caminhões, ônibus e veículos de carga. Já entre moradores de favelas, esse índice cai para 62%.

 

O chefe do Setor de Pesquisas Territoriais do instituto, Filipe Borsani, ressalta o impacto direto dessa infraestrutura deficiente no acesso a serviços básicos.
“Isso significa a dificuldade de acesso a certos serviços públicos. Não passa um caminhão de lixo, por exemplo”, afirma.

 

Ainda conforme o Censo 2022, o Brasil tinha 16,4 milhões de pessoas vivendo em 12.348 favelas, distribuídas em 6,56 milhões de domicílios. Para fins de análise, o instituto considera como vias todos os tipos de passagens, como becos, vielas, escadarias e palafitas, e faz comparações somente entre os municípios que registram a existência de favelas.

Calçadas: outro retrato da desigualdade urbana

A presença de calçadas é outro indicador que evidencia a precariedade da infraestrutura nas comunidades. Fora das favelas, 89,3% dos moradores contam com calçada na rua onde vivem. Nas favelas, porém, esse índice despenca para 53,9%.

 

Em comunidades menores, com até 2,5 mil habitantes, a proporção de moradores com calçada não chega a 50%. Em favelas mais populosas, com mais de 10 mil moradores, sobe para 61,4%.

 

A Rocinha, maior favela do país, apresenta um cenário ainda mais crítico: apenas 12,1% dos moradores vivem em vias com calçadas. E quando se trata de calçadas sem obstáculos, a situação é mais grave — só 0,1% das residências da comunidade estão em vias com esse padrão.

 

No geral, apenas 3,8% dos moradores de favelas no país têm calçadas desobstruídas, contra 22,3% da população que vive fora desses territórios. As rampas de acessibilidade para cadeirantes também são raras: 18,5% fora das favelas e apenas 2,4% dentro delas.

Pavimentação e disparidades regionais

A pavimentação das vias também reflete a desigualdade estrutural. Nas favelas, 78,3% dos moradores vivem em trechos pavimentados — proporção inferior aos 91,8% registrados fora das comunidades.

 

A presença de pavimentação cresce conforme aumenta o tamanho da favela. Em comunidades com até 250 moradores, 65,8% têm vias pavimentadas. Nas maiores, com mais de 10 mil habitantes, o índice chega a 86,7%.

 

A Bahia, porém, foge à regra nacional. É o único estado em que a proporção de moradores de favelas com vias pavimentadas (92,1%) supera a de áreas fora das favelas (89,7%). Para Borsani, essa peculiaridade pode estar relacionada à “autoconstrução” das próprias comunidades, que podem ter pavimentado seus caminhos.

Iluminação pública: presente, mas insuficiente

A iluminação pública é a infraestrutura mais disseminada nas favelas. Segundo o Censo, 91,1% dos moradores vivem em trechos com postes de luz — número que chega a 98,5% nas áreas fora das favelas.

 

Mesmo assim, a Rocinha novamente aparece como exceção: apenas 54,3% dos moradores têm iluminação no entorno do domicílio.

“Exclusão histórica”

Os dados revelam o tamanho da desigualdade urbana no país. Para Borsani, o quadro mostra uma “exclusão histórica” das favelas na oferta de serviços públicos.


“É possível observar que existe, por parte do poder público, uma intensidade em promover esses equipamentos em alguns espaços e em outros não”, analisa.

 

Já a gerente de Favelas e Comunidades Urbanas do IBGE, Leticia Giannella, destaca que o levantamento deve servir de ferramenta para reivindicações sociais.


“Que esses dados sejam instrumentos para reivindicação por melhorias, tanto pelas populações quanto pelas organizações locais, para que deixem de ser uma oferta precária ou incompleta de serviços e equipamentos feitos pelo Estado”, afirma.

 

A pesquisa reforça o diagnóstico de desigualdade territorial no Brasil e evidencia desafios estruturais ainda distantes de solução. *Com informações da Agência Brasil.

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