Pix por aproximação e cinco anos do open finance: revolução silenciosa no sistema financeiro brasileiro

Sistema de compartilhamento de dados completa cinco anos, amplia uso do Pix e prepara terreno para a portabilidade de crédito em 2026

Luis Gustavo, Da Redação*


Pagar um café apenas aproximando o celular da maquininha, sem abrir o aplicativo do banco, já faz parte da rotina de muitos brasileiros. Mas o chamado Pix por aproximação, lançado em fevereiro, é resultado de um processo tecnológico que vai muito além da praticidade. Ele só se tornou possível graças ao open finance, sistema de compartilhamento de dados financeiros que completou cinco anos na semana passada.

 

A lógica é simples: o correntista autoriza o uso de suas informações por terceiros, com possibilidade de cancelar o acesso a qualquer momento. Tudo regulado pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Essa base tecnológica permitiu avanços como o Pix automático, lançado em junho, que substitui boletos bancários em cobranças recorrentes, e a consulta de saldos de múltiplas instituições em uma única tela.

 

O open finance também ampliou as ofertas de crédito, ajudando bancos a oferecer juros menores para bons pagadores e aumentando em até 30% a taxa de aprovação de empréstimos. Desde abril de 2023, o sistema passou a incluir também informações sobre investimentos, câmbio, seguros, previdência, capitalização e credenciamento.

 

Obstáculos e gargalos

Apesar dos avanços, o setor ainda enfrenta desafios. Segundo a Associação dos Iniciadores de Transação de Pagamento (Init), apenas 50% a 60% das transações feitas pelo open finance são concluídas sem erros — índice bem inferior aos 99,5% dos cartões de crédito e débito.

 

“Nosso desafio é chegar ao mesmo nível de eficiência dos cartões”, afirma Gustavo Lino, diretor-executivo da Init. Ele ressalta, no entanto, que o sistema é mais seguro, com número ínfimo de fraudes.

 

Outro entrave é a baixa adesão das empresas. Em 2024, enquanto pessoas físicas realizaram dezenas de milhões de consentimentos, as pessoas jurídicas registraram apenas pouco mais de 400 mil. Questões burocráticas e contábeis travam o avanço, como explica o presidente da Init, Jonatas Giovinazzo:

 

“Há empresas com centenas de contas bancárias. O open finance precisa se adequar para que os lançamentos contábeis e as conciliações sejam feitos de forma automatizada, inclusive em transações nos fins de semana.”

 

Uma das soluções em estudo é o Pix em lotes, que permitiria às empresas processar várias transações ao mesmo tempo sem que os bancos bloqueiem operações por excesso de movimentações.

 

Próximos passos

Apesar das dificuldades, especialistas apontam que o futuro do open finance está justamente nas empresas. “Pequenas e médias ganharão poder de barganha para crédito e facilidades para oferecer garantias. O grande volume virá das pessoas jurídicas”, avalia Lino.

 

O Banco Central já prepara a próxima fase. Em fevereiro de 2026, deve ser lançado o recurso de portabilidade de crédito via open finance, permitindo que correntistas transfiram dívidas e empréstimos entre bancos com apenas alguns cliques. A novidade começará pelos créditos comuns e será expandida ao consignado, tornando o processo mais simples e transparente.

 

De um simples café pago por aproximação a uma nova forma de gerir empréstimos, o open finance está redesenhando o sistema financeiro brasileiro — uma revolução silenciosa, mas de impacto cada vez mais profundo.

 

*Com informações da Agência Brasil.

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