A psicanálise na perspectiva dialética

*Felipe Pereira


Desde a Grécia antiga, tida como o berço do pensamento filosófico, já se pensava na dialética. Heráclito, por exemplo, via o mundo em constante transformação, sendo impossível entrar no mesmo rio duas vezes, pois o rio e nós não seríamos o mesmo. Na verdade, o próprio ato humano é baseado em conflitos.

Devo esclarecer aqui que conflitos não devem ser entendidos como algo negativo, mas sim como meio de mudança e reinvenção. Para o leitor que não está familiarizado com o conceito de dialética, de maneira resumida, seria o confronto de ideias e pensamentos — eu tenho um pensamento sobre algo (tese), alguém tem um pensamento contrário ao meu (antítese) e dessa colisão nasce algo novo (síntese). Essa é a estrutura da dialética proposta pelo filósofo Hegel.

O pensamento filosófico surge de uma forma dialética, uma maneira de explicar o mundo como contraponto dos mitos narrados pelas civilizações antigas. O considerado primeiro filósofo, Tales da cidade de Mileto, investigou e chegou à conclusão de que não eram os deuses que criaram o Cosmo, mas que havia outro elemento que poderia ser a origem de todas as coisas. Para ele, esse elemento era a água.

Mas foi a partir de Sócrates que esse método veio a se popularizar. Sócrates desenvolveu o que ficou conhecido como método socrático. Este filósofo usava duas técnicas para ajudar as pessoas a alcançarem a verdade: ironia e maiêutica. A ironia consistia em Sócrates fingir não saber sobre determinado assunto, ele fingia ignorância. Com isso, os indivíduos se enrolavam nas explicações sobre aquilo que eles consideravam ter total domínio. Então, Sócrates entrava com a segunda técnica, a maiêutica, que significa o parto de ideias. Com essa segunda técnica, Sócrates trazia a verdade de dentro do indivíduo, como se ele estivesse “parindo” o conhecimento.

Se observamos atentamente, veremos o quanto a dialética está presente em tudo que é humano. Onde houver duas pessoas, haverá uma confrontação. Quando as pessoas estão insatisfeitas, elas lutam, protestam, reclamam. Ou seja, elas buscam por mudanças.

Um exemplo claro seria a Revolução Francesa. A classe operária estava insatisfeita com as regalias do clero e da nobreza, que tomavam grande parte daquilo que a plebe produzia. Esse descontentamento chegou a um extremo devastador, muitas pessoas morreram nessa revolução.

Trazendo a dialética no campo cultural, em um cenário mais próximo ao nosso, podemos observar o famoso “choque de gerações”. A cada geração que se passa, os mais novos dizem que os mais velhos estão ultrapassados. Uma geração vem, transforma a cultura e se apega a ela; até que a nova chegue e cause uma transformação. Um ciclo constante.

Um grande pensador que conseguiu observar esse conflito humano e a influência dele na civilização foi o médico austríaco Sigmund Freud. Contrapondo-se ao pensamento de sua época, Freud entendeu que a psique humana era dividida. A psicologia no tempo de Freud preocupava-se com os fenômenos observáveis, que fossem capazes de experimentação, ela era influenciada pela forte presença do conhecimento científico, ofuscando a visão para a totalidade humana. O pensador austríaco, em sua prática clínica, observou que o ser humano não era uno, ou seja, havia fragmentações. Partes conscientes e outras inconscientes.

Segundo Freud (1900), os filósofos e poetas já haviam identificado essa fragmentação inconsciente. Para ele, aquilo que não poderíamos reconhecer como nosso, devido às exigências da sociedade, ficava isolado, longe do pensamento consciente. Porém, essas coisas que não podemos trazer à consciência nos afetam de outra forma, através de sintomas, inibições e outras maneiras criativas que encontramos de realizar nossos desejos.

Em sua obra O Mal-Estar na Civilização, Freud (1930) alega que a mesma civilização que nos protege e traz segurança é a mesma que nos impede de ser feliz. Por este motivo, estamos sempre modificando o mundo ao nosso redor, para podermos saciar e preencher uma falta que não conseguimos nomear.

Olhando para as obras deixadas por Freud e a compreensão que esse brilhante pesquisador teve sobre a alma humana, podemos teorizar que a estrutura psíquica é uma forma de dialética. Ou seja, existem as exigências do ID (onde ficam todos nossos impulsos e desejos) e as cobranças do SUPEREGO (instância que regula a moral humana), cabendo ao EGO (mediador do conflito) encontrar a melhor resposta para essas duas demandas. Poderíamos situar o ID como tese, o SUPEREGO como antítese e o EGO como síntese. Havendo assim uma formação de compromisso entre essas três instâncias.

Para exemplificar e tornar mais nítido ao leitor, podemos trazer à tona um conceito muito presente na psicanálise que é o Complexo de Édipo. Nesse conceito, Freud articula as tragédias gregas com as manifestações da psique. Este complexo foi pensado a partir da literatura de Sófocles, onde Édipo mata seu pai e casa-se com sua mãe.

Essa obra serviu à clínica do médico austríaco por revelar aquilo que ele estava observando. Ele percebeu que os meninos têm a tendência a rivalizar com o próprio pai pelo amor da mãe. É comum percebermos em brincadeiras de “lutinhas”, onde o filho tenta “guerrear” com o pai. Em contrapartida, com a mãe, ele demonstra carinho e cuidado. Mas a criança sabe que não pode ter a mãe, então ele sente a angústia de não a possuir e tem medo do pai. Essa angústia de retaliação por parte do pai gera uma tensão que só é dissolvida com o desenvolvimento do SUPEREGO.

Imaginemos que um homem adulto apareça no consultório com uma fobia ou ansiedade generalizada. O indivíduo alega ter pavor de rato ou cachorro, um pavor que não seja natural. Ou que está tendo fortes crises de ansiedade. Neste cenário, esse homem percebe o que está sentindo (tese), cabe ao psicanalista levá-lo à reflexão do porquê ele está sentindo aquilo (antítese) e nesse trabalho conjunto, o paciente poderá entender as raízes da sua fobia ou ansiedade (síntese). Esse indivíduo pode estar sofrendo de um complexo edípico mal elaborado, em que ele teve problemas com um pai distante e frívolo, ou uma mãe que mal demonstrou amor, fazendo com que ele sentisse medo constante, por desde cedo ser vítima de insegurança e desamor.

Contudo, deixando claro que, assim como Hegel (1807) postula, a síntese não é algo fixo e acabado, mas sim uma nova tese que cabe uma outra antítese. Desta forma, se dá a prática clínica — assim como o exemplo do parágrafo anterior, onde as causas do adoecimento podem ser muitas e as conclusões que o indivíduo pode chegar também são variáveis. Dentro dessa estrutura dialética da alma, novos caminhos podem se abrir.

Podemos finalizar dizendo que os antigos e novos pensadores que estudam a sociedade também estudam a mente humana. Visto que somos agentes transformadores do meio em que vivemos e, como trabalhado até aqui, nenhuma mudança acontece sem desavenças.

Com a clínica psicanalítica, o paciente não chega à compreensão do seu sofrer sem antes tê-los que pôr em questão, sem revê-los e sem desestruturá-los. Somente com esse confronto direto, o indivíduo será capaz de criar uma nova perspectiva para si, um mundo onde ele não precise sofrer desnecessariamente.

*Formado em psicanálise pelo Instituo Brasileiro de Psicanálise Clínica, atua como psicoterapeuta e é pós-graduado em Psicologia Organizacional

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova.

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