A estrada para a alma

*Felipe Pereira


Há algum tempo, eu prometi a mim que iria buscar o conhecimento. Foi uma jogada ousada, eu sei. Foi um caminho desgastante, conflituoso e tortuoso. Eu não sabia qual conhecimento eu queria, eu somente sabia que queria conhecer o máximo de coisas possíveis. Já tem alguns anos isso e eu deixei muita bagagem que não me serviam mais. Eu gostaria de dizer que avancei bastante e que alcancei grandes verdades. Porém, sendo sincero, devo dizer que se progredi em alguma coisa, foram apenas passos pequenos. Hoje entendo aquela famigerada frase atribuída a Sócrates, onde o filosofo diz que a única coisa que ele sabe, é que ele nada sabe. Essa minha busca demonstrou o tamanho da minha ignorância com a complexidade do mundo, do conhecimento, da vida. E isso me assusta.

Para conseguir avançar, eu precisei quebrar barreiras, e, sim, foi extremamente doloroso. Precisei fazer tudo sozinho; precisei aprender a andar de novo. Nasci em um berço cristão, tudo que eu sabia do mundo era através de uma ótica cristã. Abandonar isso me custou amizades e alguns olhares desconfiados de familiares. Sei que nenhum deles fizeram por mal, às vezes as pessoas não lidam bem com ideias diferentes, pois isso coloca em xeque a identidade que elas construíram, que deram a elas um propósito. Mas eu estava insatisfeito, eu precisava de mais, os muros já não eram uma segurança para mim, eram uma prisão. Então dei o primeiro passo, com medo, receoso e também esperançoso.

Eu mergulhei nos estudos sobre filosofia e psicologia. Comecei a entender o que eram as manifestações que antes eu atribuía ao divino. Entendi de onde vinha meu medo da condenação eterna e quais mecanismos psíquicos eram ativados com essas crenças. Não compreendam mal o que quero falar. Não estou dizendo que as crenças são ruins ou que ninguém deva tê-las. Essa é apenas a minha trajetória. Para cada um, a jornada é única. Meus passos não servem para meus semelhantes, cada um sabe o que é melhor para si. Para mim, o melhor era seguir adiante e deixar partes da minha identidade para trás, somente assim eu poderia construir algo que me deixasse orgulhoso de mim.

Aprendi a ser cético, a duvidar de qualquer manifestação sobrenatural, passei a pesquisar a vida pela ciência e pela observação empírica. Se eu disser que encontrei as respostas para os mistérios da existência e do cosmo, estarei mentindo. Ainda estou tentando compreender quem sou e se eu tenho algum papel nesse mundo. Passei por algumas crises existenciais, senti-me completamente desorientado e sem saber o que fazer. Por vezes eu quis deixar minha busca e voltar atrás, dizer para as pessoas que me desestimularam que elas estavam certas. No entanto, bendita é essa minha teimosia que me impediu de renunciar.

Ainda estou em busca desse algo novo que quero construir. No fundo, eu sempre soube que minha busca intelectual me levaria a algum lugar, eu só não sabia que lugar era esse. Eu não sei dizer se no fim voltarei ao ponto de início, àquele ponto em que despi da minha ingenuidade. Sei que mesmo voltando, não serei o mesmo de quando eu saí. Essa é a minha jornada do herói. Heróis voltam para casa, mas com um novo olhar sobre a vida.

Se compartilho essa minha visão, é porque acredito que existam pessoas que decidiram ser as “ovelhas negras” de suas comunidades. Acredito piamente que os grandes pensadores também precisaram fazer essa jornada e deixaram partes de si pelo caminho. Não estou me colocando como um grande pensador, mas sou grato por essa curiosidade inata que me arrancou da inatividade e me empurrou ao encontro de mim mesmo, da minha verdadeira essência. Aprendi a ver o mundo como uma dialética, é do conflito de ideias e opiniões que algo diferente surge. Eu tinha minha percepção de mundo, decidi ir contra ela e vi um universo inteiro se formar dentro de mim.

Teve um custo muito alto, uma tristeza marcante por ter perdido aquilo que um dia eu fui. Porém, eu nunca me senti tão livre em toda a minha vida. Eu senti o calor do sol de maneira diferente, o céu azul já não era mais limitado pelos muros que cerceavam a minha vista. Quando chovia dentro de mim, eu tinha abrigo nesse lugar que me prendia, agora eu não tenho mais esse lugar, mas eu não me importo, aprendi a dançar na chuva.

*Formado em psicanálise pelo Instituo Brasileiro de Psicanálise Clínica, atua como psicoterapeuta e é pós-graduado em Psicologia Organizacional

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova.

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