Como as redes sociais estão moldando as conversas sobre saúde feminina

Da autoimagem à escolha de métodos contraceptivos, o universo digital tem derrubado tabus e ampliado o acesso à informação sobre o corpo da mulher

Da Redação


Um estudo da Universidade de York revela um dado relevante sobre como o uso das redes sociais impacta diretamente a saúde mental de mulheres jovens e sua percepção corporal. O levantamento, feito com 66 universitárias, aponta que quem se afastou de plataformas como Instagram, TikTok e Facebook por uma semana relata melhoras na autoestima. 

As redes, muitas vezes, alimentam ciclos de comparação. Ao se distanciar, as participantes perceberam menos pressão estética e mais bem-estar emocional. Isso evidencia como o consumo excessivo de conteúdo idealizado interfere na saúde mental feminina. Entre os principais efeitos observados:

  • Redução na ansiedade relacionada à aparência;
  • Aumento da satisfação corporal;
  • Mais qualidade do sono e disposição.

O peso da influência na vida real

Mais um estudo, realizado por estudantes da Escola de Comunicação da UFRJ, reforça como o Instagram impacta e o comportamento de consumo e a autoimagem. Segundo a pesquisa, 90% das mulheres entrevistadas sentem desconforto com a “vida perfeita” exibida por influenciadoras.

O paradoxo fica evidente: embora 30% rejeitem conteúdos promocionais, os temas que mais atraem são justamente moda, beleza e bem-estar — os campeões de publicidade. Grazielli Fraga, estudante de jornalismo, reflete sobre essa influência:

“Já comprei uma panela azul só porque uma influenciadora postou. No fundo, nem sei se gostava tanto assim da panela ou da ideia de ter algo que parecia fazer parte daquela vida perfeita.”, comenta. 

Essa lógica reforça padrões de consumo que nem sempre estão alinhados com as reais necessidades das mulheres, alimentando ciclos de comparação e frustração.

Saúde, corpo e publicidade tóxica

O laboratório vinculado à UFRJ, trouxe à tona outro dado. Em apenas 28 dias de monitoramento, foram identificados 1.565 anúncios problemáticos direcionados às mulheres nas plataformas da Meta. A maioria desses anúncios estavam relacionados com:

  • Riscos à saúde pública ou individual (78,6%);
  • Publicidade enganosa ou desinformação (66%);
  • Reforço de estereótipos e objetificação (44,3%);
  • Fraudes e golpes (35%).

Do total, 1.253 anúncios abordavam temas ligados ao corpo feminino, muitas vezes usando selos falsos da Anvisa, deepfakes e outras técnicas para legitimar produtos inseguros, especialmente no setor de estética e bem-estar.

A professora e psicóloga Anna Lucia Spear King alerta que esse ambiente, alimentado por dopamina e busca por validação, cria dependência e compromete a saúde mental. “A busca incessante por curtidas, validação e pertencimento faz com que o cérebro associe essas interações ao prazer, gerando um ciclo difícil de romper”, explica.

Quebrando tabus: a conversa sobre saúde feminina nas redes

Apesar dos riscos, é fato que as redes também vêm desempenhando um papel importante na democratização de informações sobre saúde da mulher. Temas antes restritos aos consultórios médicos hoje circulam em perfis de criadoras de conteúdo, fóruns, grupos de apoio e podcasts.

Assuntos como saúde menstrual, planejamento reprodutivo, menopausa e métodos contraceptivos, incluindo a pílula Slinda, passaram a ser tratados de forma mais aberta, acessível e sem tanto tabu.

Essas conversas, no entanto, precisam ser sempre acompanhadas de uma orientação responsável. A decisão de iniciar qualquer medicação, deve ser feita exclusivamente com acompanhamento médico, considerando as particularidades de cada organismo.

A linha tênue entre informação e desinformação

De um lado, há mais acesso a informações valiosas sobre a saúde das mulheres, autocuidado e sexualidade. Do outro, cresce a exposição a conteúdos tóxicos, desinformação e pressões estéticas. Por isso, é fundamental desenvolver um olhar crítico sobre o que se consome nas redes:

  • Questionar a fonte da informação;
  • Desconfiar de soluções milagrosas;
  • Priorizar conteúdos produzidos por especialistas de saúde;
  • Lembrar que nem tudo que funciona para uma pessoa serve para outra.

Caminhos para um uso mais saudável das redes

O Instituto Delete, coordenado por Anna Lucia, oferece gratuitamente apoio psicológico e psiquiátrico para quem enfrenta dependência digital. A proposta é ajudar usuários a fazer um uso consciente das redes — aproveitar os benefícios sem abrir mão da própria saúde mental.

O Ministério das Mulheres, junto ao projeto Brasil Sem Misoginia, também trabalha para enfrentar a publicidade tóxica e a violência digital contra mulheres, buscando criar ambientes digitais mais seguros e livres de opressões.

No fim das contas, o desafio é esse: aprender a navegar por um mar de informações — entre filtros, tendências, e discursos sobre empoderamento — sem perder de vista a própria saúde, autonomia e bem-estar.

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