Deuses, pensamento e natureza

A busca humana por sentido

*Felipe Pereira


A evolução da espécie humana nos presenteou com uma grande capacidade de raciocinar. Esse raciocínio abstrato nos diferencia das outras espécies, torna-nos capazes de projetar no mundo aquilo que sentimos por dentro. Foi devido a esse presente da evolução que pudemos estruturar nossa sociedade. Pois nossa capacidade de abstração nos permitiu o desenvolvimento de uma linguagem extremamente complexa, mesmo que ela seja por vezes ineficaz para exprimir tudo o que, verdadeiramente, sentimos.

Por sermos seres pensantes e dotados de vontade, possuímos também uma curiosidade inata, nós, seres humanos, não sabemos viver sem saber. Para nossa espécie, é inadmissível não termos respostas, não suportamos o peso de uma existência sem sentido e propósito. Não suportamos sofrer sem achar um motivo para esse sofrimento. Nunca teremos respostas para todos os questionamentos, e são essas dúvidas que nos colocam em movimento.

Ao longo da nossa estadia aqui, muitos de nossos semelhantes tentaram buscar as respostas para as indagações mais fundamentais como: quem criou o Universo e por quê? Qual o sentido da vida? O que tem depois da morte? Por que estamos aqui? Por que nós e não outros seres? Palmeiras tem ou não um mundial? (Perdoem-me, meus caros leitores, não poderia eu privá-los de tal dúvida). Há milhares de anos que buscamos essas respostas, porém ainda não as encontramos. Estamos mais avançados em nossa busca, mas ainda longe do ideal.

Os primeiros de nossas espécies acreditavam nos espíritos da natureza, sendo eles os responsáveis pela ordem do Universo e nossos guias em busca de uma evolução espiritual. Para nossos antepassados, os mortos se comunicavam com os vivos, dando-lhes ensinamentos e recursos intelectuais para progredirem. Em muitas tribos, os mortos eram venerados.

Conforme as sociedades foram deixando de ser tribais e apresentando complexidades cada vez maiores, as religiões e os deuses foram sendo criados. Cada movimento e atividade do Universo era vontade dos deuses. Para os crentes dessas religiões, se as vontades divinas não fossem atendidas, os fiéis eram castigados por tamanho insulto e desrespeito com os deuses. Até hoje esse pensamento persiste, mas ele não é mais a única verdade, como fora nos tempos longínquos.

Com a expansão territorial e com o choque de culturas, pensadores foram surgindo e buscando compreender onde residia a verdade. Esses pensadores buscaram enxergar essas perguntas fundamentais na lógica, no pensamento crítico e na análise da natureza e em seu papel na estruturação do nosso Cosmo. Esses pensadores foram chamados de filósofos, pois eles buscavam respostas mais concisas e fundamentadas, respostas estas que não poderiam mais ser encontradas nas vontades divinas.

Se não fossem esses pensadores e sua busca pela verdade, nossa compreensão do mundo hoje seria muito pequena e as perguntas que tentamos responder não teriam um caminho sólido e preciso. De fato, esse caminho se tornou mais lento, seria mais rápido e fácil dizer que alguma divindade teria a resposta para tudo, seria mais cômodo para nossa ânsia de ter respostas. No entanto, esse caminho fácil não traria o progresso que hoje nos permite ter uma qualidade melhor de vida (ou não, depende do ponto de vista que se olha!).

Não podemos desprezar nossos antepassados que encontraram as suas respostas nos deuses, eles usaram sua capacidade de pensamento para construir um caminho, mas é preciso entender que essa busca não pode se limitar, por mais que isso reacenda nossas inseguranças, precisamos continuar duvidando.

Devido à vontade dos pensadores de encontrar as respostas de forma racional, surgiu uma nova forma de compreender os mistérios da vida, a Ciência. Se nossos antepassados tinham os deuses e os filósofos tinham o pensamento racional, os cientistas tinham a Natureza. A observação crítica e metódica da Natureza permitiu a compreensão da humanidade sobre os fenômenos que antes eram explicados como atos divinos. Se para os gregos antigos as grandes ondas eram a ira de Poseidon, para a ciência é a reação às forças do vento que empurra as águas, ou seja, apenas a Natureza exercendo sua cadeia de ação e reação. A busca de respostas para a criação do mundo do ponto de vista científico é rígida, sendo aceito apenas aquilo que pode ser verificável e falseável. Essa iniciativa crítica começou com os filósofos, que mesmo tendo critérios mais rígidos, não abandonaram a metafísica (compreensão das coisas que não podem ser entendidas através dos nossos sentidos, apenas pelo pensamento). Para a Ciência, a metafísica é descartável, pois se trata de pura subjetividade, sendo aceito apenas o que é objetivo.

Como salientado acima, ainda estamos em busca de muitos questionamentos, a existência é um grande mistério a ser deslindado e não temos as resoluções corretas, talvez nem saibamos como fazer as perguntas corretamente.

Para mim, parece que as religiões, as filosofias e as demais ciências tentam descobrir as mesmas coisas, a diferença está puramente nos métodos usados. Sejam os deuses que criaram tudo, seja a metafísica a verdade da vida, ou simplesmente as tensões naturais, estamos todos tentando saciar nossa ânsia de saber, ao mesmo tempo que tentamos acalentar nossa falta de maturidade para lidar com as incertezas que nos ocupam o coração.

Longe de mim querer dizer quem tem a razão, mas tenho o dever de incentivá-lo a buscar por si próprio suas respostas. Talvez, em uma perspectiva mais ampla, a vida não tenha sentido nenhum e o Universo se criou com suas fórmulas inacessíveis ao conhecimento que temos até agora, mas isso não quer dizer que você não possa criar um sentido para sua vida. Não se contente com respostas banais, mas também não perca sua preciosa e efêmera existência com questões que talvez nunca encontraremos uma solução. O que importa é que cada um possa viver bem e em harmonia.

*Formado em psicanálise pelo Instituo Brasileiro de Psicanálise Clínica, atua como psicoterapeuta e é pós-graduado em Psicologia Organizacional

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova 

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