Há uma frase famosa de Freud que diz: “É impossível enfrentar a realidade o tempo todo sem nenhum mecanismo de fuga”. De fato, se não tivéssemos nossas armaduras para esconder nossas fragilidades, seríamos incapazes de continuar vivendo.
A sociedade exige de nós comportamentos imaculados, reforçando esse imperativo com as leis e as punições aos transgressores. Se assim não fosse, não haveria sociedade, talvez nem a humanidade aqui estaria mais, pois o que nos fez prosperar foi nossa capacidade de comunicação e organização.
Mesmo trazendo vantagens para nossa sobrevivência, a cultura nos obriga a reprimir algumas vontades e desejos. Existem alguns desejos que não são ilegais, porém acabam caindo no campo da imoralidade. Por exemplo, beber em excesso, ter relação sexual com diversos parceiros, etc. Por isso o carnaval é tão aguardado para os brasileiros, pois ele seria esse período de fuga, onde os desejos ditos imorais podem sair para dançar sem a supervisão ferrenha da moral.
Por isso, o carnaval é marcado por fantasias, pois, simbolicamente, nossos impulsos e pensamentos reprimidos encontram satisfação nessas fantasias. É possível ver homens usando fantasias femininas, talvez em seus dias comuns esses homens nem cogitariam vestir tais fantasias. Entretanto, no carnaval, o julgo dos foliões é posto de lado, os guardas da consciência humana ficam mais descuidados e os desejos aprisionados são libertos.
Para o criador da psicanálise, a cultura não nos permite ser felizes. Pois muito dos nossos impulsos não são permitidos entrar em contato com a realidade, fazendo com que o adoecimento psíquico seja o destino de muitos deles. Para nos sentirmos plenamente realizados, teríamos que dar satisfação irrestrita para nossos desejos, até os mais sombrios. Contudo, se isso acontecesse, seria impossível vivermos como uma sociedade. Por isso, o ser humano busca alternativas de satisfazer indiretamente os desejos que a cultura julga como pecaminosos. Para tal satisfação, foram criados a arte, o entretenimento, a filosofia, as religiões, o teatro, entre outros. É nesse contexto que o carnaval cria suas raízes na alma humana, pois ele age como um desses respiros que o ser humano encontra em meio ao sufocamento da moral
As pessoas demasiadas moralistas condenam as práticas carnavalescas por considerarem ela abominável, mas talvez essas pessoas, em seus íntimos, nos porões mais escuros das suas almas, também desejam desfrutar desses pequenos momentos de folga onde podemos ser nós mesmos, sem julgamentos e sem culpas. O ponto central é que devemos buscar esses momentos de felicidade, de distração. Suportar o peso da cultura o tempo todo é angustiante. Até os mais ferrenhos moralistas devem, de vez em quando, baixar a guarda e permitirem sentir o sopro da liberdade.
Afinal, uma vida dentro de uma gaiola, é uma vida desperdiçada. É importante saber voar, mas também encontrar o ponto de equilíbrio para saber quando repousar. Se o ano todo fosse carnaval, o mundo seria um caos. Mas se nunca saíssemos para ver a luz do sol, viveríamos sempre em trevas.
*Formado em psicanálise pelo Instituo Brasileiro de Psicanálise Clínica, atua como psicoterapeuta e é pós-graduado em Psicologia Organizacional
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova
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