O desejo do filho pródigo

*Felipe Pereira


Trago aqui uma história bem conhecida até mesmo para aqueles que não professam a fé cristã. Trata-se da história do filho pródigo encontrada no livro de Lucas 15:11-32. Resumidamente, a parábola diz respeito a um jovem que decide pedir a sua parte da herança e partir para o desconhecido. Ele gasta a tua herança, passa dificuldades e decide retornar para a casa do pai, onde é recebido com logros e muita festa. A importância dessa parábola para o meio cristão se encontra na reconciliação das pessoas que decidiram afastar-se da fé para viver o mundo e, após isso, voltaram.

Porém, quero trazer aqui um novo olhar sobre essa parábola. A atitude do filho é vista como inapropriada, pois ele pediu sua parte da herança e foi se aventurar. Mas o que o filho na verdade queria, era sair da limitação em que ele vivia. Em todos nós habita o desejo de sermos mais do que somos, de vivermos mais coisas que não vivemos. Contudo, às vezes, somos coibidos a não irmos em busca de nossas vontades e desejos. De fato, não seria aceito socialmente fazermos qualquer coisa que nos vier à mente, a sociedade nos diz o limite que devemos ter. Mas será que esses limites que a sociedade impõe são sempre bons? Será que o filho pródigo estava tão errado em querer conhecer a vida, o mundo, novos lugares? Observamos que o irmão mais velho desse nosso aventureiro ficou ressentido quando ele foi recebido com festa, enquanto ele, o irmão mais velho, sempre foi obediente e nunca recebeu nada por isso. Devemos pensar que o ressentimento do irmão mais velho foi apenas por nunca ter recebido uma festa, ou por nunca ter tido a coragem de fazer igual ao irmão mais jovem? Talvez o irmão mais velho tenha sido obediente ao pai a vida toda, sem nunca ter saído do lado dele, por medo do desconhecido, para alimentar a imagem de filho exemplar. Talvez o ressentimento do irmão mais velho seja a expressão dos desejos nunca expressados de liberdade, de ir mais longe e viver mais coisas, pois isso talvez significaria macular a admiração que ele queria angariar do pai.

O filho pródigo, que é o objeto da nossa análise, por um momento soube o que é ser livre. No entanto, ele sentiu o peso que a liberdade traz. A liberdade exige responsabilidades. Se o filho pródigo tivesse sido ensinado por seu pai a ser um melhor administrador e se o pai tivesse dado mais liberdade aos filhos, talvez eles saberiam conciliar o desejo de serem livres com a responsabilidade sobre seus atos.

Assim como o pai do filho pródigo, muitos pais prendem seus filhos ao invés de os ensinarem sobre a vastidão do mundo. Após gastar todo o seu dinheiro, o filho pródigo ficou desesperado para voltar, pois ele havia sido mantido por tanto tempo perto do seu pai, que mal sabia gerenciar todos os desejos que estavam em seu ser. Todos os seres humanos buscam a acomodação. Para o filho pródigo, na casa do pai havia comodidade, ele não precisava passar nenhum tipo de necessidade, mas em troca teria que reprimir suas vontades, ao invés de se transformar e crescer com elas. Ele preferiu o conforto, ao invés de ser dono de seu próprio destino e assumir o dever que isso traz. Em suma, o filho pródigo preferiu continuar nessa posição infantilizada, da proteção paterna, do que aprender sobre a importância de crescer e assumir um compromisso com seus desejos e a sociedade em que vivia.

Talvez possamos aprender algo com essa história. Não no aspecto religioso, mas no educativo. Se o pai tivesse ensinado sobre liberdade e responsabilidade e tivesse educado os filhos para encontrarem os seus próprios caminhos, se tivesse alertado eles para as dificuldades do mundo e sobre a importância do trabalho para poder se estabelecer em qualquer lugar que eles estiverem; talvez assim o filho tivesse saído, aprendido a viver diante das adversidades e não sentisse a necessidade de voltar. Talvez o irmão mais velho não fosse um homem ressentido por ter reprimido seus próprios desejos e ele também aprenderia a encontrar seu destino.

O que o filho pródigo fez, foi querer buscar sua própria verdade, só que ele tinha apenas recursos financeiros para isso e não emocionais. Ele chegou perto de conhecer o que de fato é a vida. Na verdade, por um breve momento ele a conheceu. E a lição mais importante que essa história pode transmitir é que cabe aos pais ensinarem seus filhos a não calarem seus desejos e sentimentos, mas sim a aprender com eles; aos pais não manterem seus filhos sobre vigilância cerrada e constante, mas os ensinarem a voar. Os pais precisam ensinar seus filhos a serem pessoas fortes e preparadas para a vida e todas as alegrias e dificuldades que ela possa trazer.

*Formado em psicanálise pelo Instituo Brasileiro de Psicanálise Clínica, atua como psicoterapeuta e é pós-graduado em Psicologia Organizacional

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova 

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