A igreja, a constituição, a política partidária e a verdade

*Arlindo Horlando


Participando da missa no santuário de nossa cidade (Nova Andradina) no domingo que antecedeu o primeiro turno das eleições de 2022, fui, infelizmente, motivado a me levantar (pela primeira vez) e sair da missa durante a homilia. Fico triste em dizer isso, mas, durante suas palavras, o padre, começou a "incentivar" seu público a não votar em candidatos que ele afirmava que seriam de esquerda. Devido a este fato resolvi escrever o texto que segue.

Antes de expor minhas opiniões sobre o fato citado, devo explanar sobre alguns pontos. Primeiramente, o que é política e política partidária? A palavra política denota à participação na comunidade, à vida coletiva, não sendo limitada aos políticos profissionais e longe do nosso cotidiano. Já a política partidária e em resumo a união voluntária de cidadãos com afinidades ideológicas e políticas. Portanto, mesmo sendo usadas singularmente, política e política partidária tem suas diferenças e similitudes.

Outro ponto que devemos saber é que, segundo a Constituição Federal (CF), é dever do Estado e de toda a sociedade garantir a liberdade religiosa. Contudo, a CF garante também o Estado Laico, que significa que o ordenamento jurídico de um país não pode se vincular a nenhum credo religioso. O artigo 19, inciso I, fixa a separação administrativa entre Estado e Igreja, vedando as relações de dependência ou alianças, permitida, porém, a colaboração de interesse público, nos termos da lei. Já, segundo a Congregação para a Doutrina da Fé, a doutrina moral católica, a laicidade entendida como autonomia da esfera civil e política da religiosa e eclesiástica é um valor adquirido e reconhecido pela Igreja, e faz parte do patrimônio de civilização já conseguido. João Paulo II, segundo mesmo texto, repetidas vezes alertou para os perigos que derivam de qualquer confusão entre esfera religiosa e esfera política.

Dito isso, o Papa João Paulo II, nos dizia que a Igreja ensina que não existe autêntica liberdade sem a verdade. “Verdade e liberdade ou se conjugam juntas ou miseramente juntas desaparecem”. Todavia, quando um líder religioso se apresenta em um púlpito, ele é visto como a "verdade", "verdade" essa que não pode ser confrontada, pois não há espaço. Outro fato é que as palavras ditas são tidas como "verdades" que levam, alguns ouvintes, a não refletir sobre os pontos abordados e sim absorver o que foi dito. Posso afirmar isso, pois acreditei, devido a lideremos em movimentos da igreja, durante muito tempo em "oração no monte e gravetos brilhantes" (caso não sabia, veja o último link da postagem).

Portanto, um líder religioso pode ser ligado a política, mas, jamais, a política partidária. Já o Estado, deve sempre priorizar o bem comum, independente da fé ou religião.  Jesus, lutou pelos pobres, doentes e marginalizados. Usando aqui as palavras o movimento Politize, "sob esse prisma, não seria correto pensar que os pontos de vistas com princípios de esquerda sejam totalmente avessos ao evangelho, da mesma forma, não seria correto pensar que as concepções afeitas à direita sejam também avessas ou totalmente condizentes ao evangelho". Jesus, no que lhe concerne, foi politicamente formado, mas nunca tomou partido que não fosse apenas o de Deus. Então, lamento esse partidarismo, mas, enquanto estivermos assim, eu sempre sairei, pois, Deus está em todos os locais, mas não nas palavras partidárias, que levam apenas a vontade do falante e não o bem público, ou em outras palavras, a verdade que pode ser buscada por cada um. Parafraseando Leonardo Monteiro, "o bom senso é, antes de tudo, a chave para o respeito".

https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20021124_politica_po.html

https://www.politize.com.br/o-que-e-politica/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_pol%C3%ADtico

https://www.politize.com.br/direita-e-esquerda-como-o-cristao-se-posiciona/

http://pastorhafner.blogspot.com/2013/03/oracao-no-monte-e-gravetos-brilhantes.html

*Professor aposentado

Este texto, não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova

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