Nota de repúdio à Bandeira do Império no desfile de 7 de Setembro em Nova Andradina

*Eduardo Martins


E quem garante que a História
É carroça abandonada
Numa beira de estrada
Ou numa estação inglória

A História é um carro alegre
Cheio de um povo contente
Que atropela indiferente
Todo aquele que a negue

Pablo Milanes Arias

O que significa portar, carregar, desfilar empunhando a bandeira do Império do Brasil, em pleno desfile cívico do dia 7 de setembro republicano? Bandeira esta que teve vigência durante o século XIX e representa um tipo de governo monárquico. Foi usada no Brasil de 1822 até 1889 quando o país passou a ser uma República.

Início essa reflexão com o belíssimo poema “Canción por la unidad latino-americana” e canção de Milton Nascimento, serão atropelados pela História todos aqueles (as) negacionistas!

O período imperial brasileiro começou com um Golpe de Estado aplicado por D. Pedro I contra o Brasil, na noite de 12 de novembro de 1823, “noite da agonia” data em que ele dissolveu a Assembleia Geral e Constituinte, prendeu alguns deputados e exilou tantos outros, pois estes deputados representantes de todas as províncias estavam elaborando uma Constituição que minimizava os poderes da monarquia e ia contra as elites; fazendeiros, ricos comerciantes, homens de negócios.

A bandeira do Império é um artefato que traz nas suas cores verde a homenagem a Portugal e na cor amarela homenageia a Áustria, país da Princesa Leopoldina. O que representa a tentativa da elite burguesa de readaptar um processo histórico passado, o período imperial, século XIX, em pleno século XXI? A resposta é a princípio política; tal burguesia de direita e extrema direita tenta se apropriar de um tipo despótico de governo, tentando fazer valer a Constituição que tinha o quarto poder; poder moderador, que era usado pelos imperadores, D. Pedro I e depois D. Pedro II. Tecnicamente o sistema de governo era parlamentar, mas o Imperador quem indicava os Ministros, na prática era um sistema totalitário “parlamentarismo às avessas”, quase que uma ditadura. No plano econômico quem mandava no Império, sob o manto da bandeira imperial, eram “homens de bem”. Por seu turno, a bandeira imperial, signo, símbolo e representante da nação encobria a escravidão de seres humanos; homens, mulheres e crianças negros eram sistematicamente violentados a sangue frio, não criou um sistema de educação pública universal para todos, apenas a elite branca e machos tinham acesso à escassa educação e proibia o voto às mulheres. Essa mesma bandeira servia para acobertar o machismo; às mulheres era reservado ficarem presas ao lar e à maternidade gerando 14, 15, 16... filhos. Essa bandeira imperial também servia para dar suporte ao tipo de nação imperial quase que sem projetos de desenvolvimento econômico social e humano. Era a bandeira de uma pequena elite privilegiada, a bandeira do patriarcado.

Dessa feita a tentativa esdrúxula de reapropriação da bandeira do Império do Brasil do século XIX pela extrema direita em praça pública no desfile do dia 7 de setembro, aqui em Nova Andradina-MS é algo muito sério, trata-se de uma prova de usurpação da República e de todas as conquistas, avanços nos campos dos direitos que nós trabalhadores e trabalhadoras assim como as populações afrodescendentes e povos originários conquistaram derramando nosso sangue. É a tentativa de trazer de volta o regime escravocrata desumano; assassino, covarde e vil onde “famílias de bem”, queimava nos almoços de domingo, pessoas humanas escravizadas que viviam em suas casas. A tentativa de trazer de volta a bandeira imperial revela o desprezo e o despudor pelas liberdades e garantias da Constituição Cidadã de 1988 e pelos direitos humanos.

É muito sério e grave o que houve nas ruas de Nova Andradina-MS, em que a elite de extrema direita destilou seu ódio pelos menos favorecidos, pelas leis e o seu total descaso pela democracia, pela paz das pessoas e pelas liberdades, uma vez que tal bandeira era o manto que encobria a falta de direitos das pessoas humildes no século XIX.

Por fim, eu enquanto ser humano, depois como historiador profissional, venho aqui deixar o meu total repúdio àqueles que portaram a bandeira escravocrata, machista, patriarcal e eurocêntrica em plena avenida!

Tudo isso se torna ainda mais grave quando uma escola de educação básica porta e faz apologia a tal símbolo anti-educação como esta bandeira. É função do historiador (a) dessa instituição dar o devido suporte técnico capaz de ensinar o passado e seus usos e abusos pelo presente. É obrigação dos professores (as) de história não permitirem que suas escolas promovam o negacionismo, tampouco e anacronismo, e muito menos permitir apologia aos erros e aos crimes do passado sob uma bandeira. Das duas uma; ou falta caráter ou falta aula de História com professor (as) honestos em relação aos fatos! Ou ambos!

Tal ato estapafúrdio em plena praça pública revela ainda o pior crime que um historiador (a) pode cometer; o anacronismo, ora a data é a da nação que é uma República de direitos e deveres e democrática com a sua Constituição em pleno vigor e suas instituições funcionado.

A Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, varreu aquele tipo de governo e política despótica e deu início a uma época de oportunidade de direitos que a Constituição do Império de 1824 não permitia; tais como sufrágio universal, saúde pública, educação pública, fim do quarto Poder Moderador, entre uma série de garantias e cidadania para todos (as) o que não havia na Constituição do Império, representado pela sua bandeira.

Comecei com uma bela reflexão poética e termino com outra de cunho histórico escrito pelo filósofo Walter Benjamim em sua tese 6 “sobre o conceito de História”.

“O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer”.

*Docente adjunto III da UFMS, curso de História. (mestre, doutor e pós-doutor em história do Brasil Império, século XIX).

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova

 

Minhas pesquisas sobre a temática em questão:

Minha tese de doutorado (2008):

https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/103173/martins_e_dr_assis.pdf?sequence=1&isAllowed=y

Minha dissertação de mestrado em formato de livro (2011):

https://www.amazon.com.br/inven%C3%A7%C3%A3o-vadiagem-sociedade-disciplinar-imp%C3%A9rio/dp/8580422566/ref=asc_df_8580422566/?tag=googleshopp00-20&linkCode=df0&hvadid=379787783723&hvpos=&hvnetw=g&hvrand=5577414989498843543&hvpone=&hvptwo=&hvqmt=&hvdev=c&hvdvcmdl=&hvlocint=&hvlocphy=1031847&hvtargid=pla-1367024780568&psc=1

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