Bom dia, Verônica

*Eduardo Martins


A sociedade civil, o indivíduo comum, não pode ter revólver, simplesmente porque não sabe o que fazer com essa bestialidade. É simples, assim que uma pessoa tem em mãos essa máquina de matar gente ela se sente empoderada, machão e fica violento, muito bravo. 

O argumento de que é para se armar contra o que eles dizem ser “bandidos” é uma falácia, conversa fiada, até mesmo porque o que temos visto nos jornais recentemente depois que a Taurus e a extrema direita começou a mandar no Brasil são números muito grandes de pessoas comuns matando e morrendo em brigas cotidianas. Não existe caso em que uma “pessoa de bem”, - eles gostam de se chamar assim - conseguiu imobilizar um ladrão que invade a sua casa, não temos relatos de que o tal cidadão de bem de revólver formou uma espécie de “esquadrão do bem”, “justiceiros da paz”, etc., nada disso e pelo contrário, vemos seus filhinhos pegando esses revólveres para brincar de “roleta russa”.

Do outro lado, da polícia, da Força da Segurança Pública, esta continua a todo vapor combatendo o crime com o agravante agora de que a sociedade está lotada de revólver e tais máquinas mortíferas estão indo parar nas mãos do crime organizado e dê pessoas inaptas, imbecis, odiosas, loucas, etc. Assim, o crime organizado, este que tem que ser levado a sério, que acontece nas religiões, famílias, empresas, tráfico e narcotráfico, crimes contra os indígenas cometidos por gente graúda. Esses crimes são severa e seriamente combatidos pelas Forças Policiais, que investiga detalhadamente, faz as devidas buscas e apreensões e tiram de circulação os verdadeiros “bandidos”, os criminosos que agem em rede de pedofilias, peculato, poligamias, assalto aos cofres públicos, e todos os tipos de crime que o sujeito que se diz cidadão de bem nem imagina ou ele próprio é o criminoso ou a vítima.

Quando o próprio “homem de bem”, de família tradicional representa o real perigo para a sua família; filhos e principalmente as meninas, quando esse sujeito machista ataca sua esposa física e psicologicamente. O verdadeiro “bandido”, muitas vezes, está dentro de casa é o macho alfa tóxico, por isso quer um revólver; mas também para sua auto exibição.

Dito tudo isso acima, parto para o meu caso concreto; uma série da Netflix de 2020, com duas temporadas contando com o elenco: Tainá Muller, Camila Morgado, Eduardo Moscovis, Reynaldo Gianechinni, Klara Castanho e grande elenco. Vou tentar não dar spoliers, no entanto, é uma análise crítica e não um relato de propaganda da série, assim deixo a dica e o leitor vai conferir a minha leitura e fazer um paralelo com a sua. É uma série policial. “Bom dia, Verônica”.

E agora faço a intertextualidade dessa série de ficção, já advertindo, que poderia ser baseado em fatos reais, mas o diretor não diz! Na primeira temporada temos o personagem de um policial violento, malvado, um psicopata e femicida que se vale da sua posição social e profissional de Policial Militar – terceiro sargento-coronel, e das suas insígnias como farda, influências e o revólver para agredir mulheres. Deixo o questionamento ao estimado leitor amigo; quem vai combater esse “bandido”? Você “homem de bem” que pegou um revólver ali na esquina e nunca deu um tiro? Nesse caso o diretor foi didático, em nos ensinar que esse tipo de criminoso só deve ser enfrentado pela Polícia especializada, preparada capacitada e remunerada para isso, depois de ter feito uma longa investigação muito séria e competente de abuso de violência doméstica cometida por esse policial, mas, sobretudo, baseado em provas concretas.

Na segunda temporada o diretor traz o caso de um líder religioso criminoso, armado, violento, corrupto, magistralmente interpretado pelo Reynaldo Gianecchini. A trama se desenvolve num arco familiar; família tradicional, branca, rica, religiosa; com papai, mamãe e filhinha, esta última uma criança. A personagem central é o líder religioso, figura carismática que lidera uma seita que promete curas e milagres de fazer mulheres engravidarem, darem a luz, para isso levam-nas para sua mansão e dali juntamente com a cumplicidade da esposa e da filhinha que são vítimas da sua violência e perversidade e de uma delegada de polícia corrupta, também vítima dele, envia essas mulheres para escravização sexual em outros países.

Para tanto o líder religioso se vale das violências, abusos, assédios dentro da sua casa; o final é bem interessante (aqui não vou deixar spoiler) assista, vai gostar. Aqui o destaque e ponto alto da série vai para a Delegacia da Mulher e de delegadas sérias e muito competentes em seu ofício, num trabalho muito perigoso colocando em risco suas próprias famílias e suas vidas em combater “bandidos” desse porte.

Dito isso, pergunto outra vez, quem vai combater esse tipo de criminoso? Você “cidadão de bem” que pegou seu Taurus ali na lojinha da esquina? E que na verdade vai fazer vista grossa para o tal líder religioso criminoso? Não! Você não vai! Quem vai combater esse tipo de bandido é a Polícia, preparada, remunerada para desempenhar essa função pública e social. Quem vai combater o feminicida “homem de bem” não é você! É a Delegacia de Mulher!

Por fim, como eu já disse no meu Facebook. Mais uma história da vida privada no Brasil envolvendo a família tradicional. A narrativa é bem real, com destaque para “pessoas de bem” (policial, líder religioso) - hipócritas e criminosos, mulheres adoecidas pelos relacionamentos abusivos e casamentos vencidos, violentos e patriarcais.

Enfim, é o arquétipo do ethos do tipo de sociedade patriarcal, machista, misógino, escravocrata que vitima o povo brasileiro. Achei fiel ao tipo de cultura de machos violentos que tem tara por revólver. Chamo atenção aqui, pois os dois “bandidos” (cidadão de bem) da série estão armados. Por outro lado, os “mocinhos” (mocinhas) também estão e dão o devido combate aos criminosos. Vale a pena conferir a série.

*Professor de História – UFMS/CPNA

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova

Cobertura do Jornal da Nova

Quer ficar por dentro das principais notícias de Nova Andradina, região do Brasil e do mundo? Siga o Jornal da Nova nas redes sociais. Estamos no Twitter, no Facebook, no Instagram, Threads e no YouTube. Acompanhe!