No livro Eichmann em Jerusalém, a filósofa Hannah Arendt falou da “banalidade do mal”, uma forma de se referir a pessoas que, imersas na vida burocrática, se tornam responsáveis por decisões que podem provocar a morte e sofrimento das pessoas, mas que não se sentem culpadas por isso, uma vez que pensam que apenas “cumprem seu dever”.
Esse tinha sido o caso de Adolf Eichmann, oficial da Alemanha Nazista e um dos responsáveis pela logística das deportações em massa dos judeus para os guetos e campos de extermínio, como Auschwitz, onde milhões de pessoas morreram. Ao ser julgado pelo Tribunal de Justiça do Estado de Israel no início da década de 1960, Adolf Eichmann justificou suas ações como oficial nazista dizendo que apenas “cumpriu ordens do Estado”.
No último dia 25/05, Genivaldo de Jesus Santos, de 38 anos, foi morto após abordagem da Polícia Rodoviária Federal em Umbaúba, no sul de Sergipe, que o interceptou por andar de moto sem capacete. Imagens da vítima sendo colocada no porta-malas de uma viatura percorreram o país e o mundo. Enquanto estava no porta-malas da viatura, os agentes policiais lançaram jatos de gás, e Genivaldo morreu por asfixia em condições que se assemelham ao extermínio nos campos de concentração nazista, como Auschwitz.
O sociólogo alemão Max Weber definiu o Estado como “o exercício do monopólio legítimo da força física dentro de um determinado território”. O uso da força física, contudo, foi pensado nesse conceito weberiano como algo que deve ser usado de forma comedida em situações específicas e por agentes treinados para esse fim pelos órgãos estatais.
No entanto, não é de hoje que se denuncia no país a banalidade no uso da violência por parte do Estado contra setores da população brasileira. Dos tempos coloniais ao Brasil atual, populações negras, indígenas, ribeirinhas, movimentos sociais, são alvo dessa violência.
Mas essa realidade pode nos enredar em um raciocínio capcioso de achar que o Estado é apenas um “vilão” e a sociedade apenas uma “vítima”. A banalização da cultura da violência permeia os poros do Brasil, um país forjado pela imposição da instituição da escravatura pelos colonizadores portugueses e que naturalizou, com o tempo, a segregação, a discriminação, o arbítrio e a morte de consideráveis parcelas de nossa população.
A ideia que subjaz essa prática social é uma visão de mundo aristocrática e hierárquica, que entende que existem pessoas “superiores” que merecem um tratamento privilegiado, com boa educação, acesso aos melhores empregos e garantia de ordem para que possam desfrutar suas vantagens, enquanto outras pessoas são tidas como “inferiores” que devem aceitar sua condição subalterna ou, então, serem submetidas pela força a aceitar isso.
Nos últimos anos a visão de mundo que banaliza a violência ganhou força com o discurso do “cidadão de bem” capitaneado pelo bolsonarismo. Perante isso, os fatos que resultaram na morte de Genivaldo de Jesus Santos se convertem em mais um triste capítulo de nossa histórica realidade, onde o aplauso ou a conivência com a ação de seus algozes contribui para perpetuar a cultura da violência no país e os privilégios de uma minoria.
*Professor do Curso de História da UFMS/CPNA
Este texto, não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova
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