Ideologia de gênero: mentiram para você!

*Sérgio Henrique Rocha Batista


Um antigo escritor romano chamado Petrônio dizia: “Primus in orbe Deos fecit timor” – a primeira coisa que Deus fez no mundo foi o medo. De fato, o medo é um dos fatores mais antigos que possibilitaram nossa sobrevivência. Por mais desagradável que seja essa sensação, ela nos ajuda a proteger a nós mesmos e nossa família, fazendo-nos preocupar com a segura e o bem coletivo.

Justamente por ser tão importante e primário na nossa mente, o medo é também uma excelente ferramenta de controle. Aqueles que conseguem assustar uma pessoa com absurdos adquirem sobre ela imenso controle, pois frequentemente se mostram como a única salvação possível contra um mal imaginário. Pode-se resumir a atitude desses vendilhões do pavor da seguinte forma: “Sigam-me, para que juntos possamos derrotar o mal sobre o qual acabei de avisá-los”.

Uma dessas quimeras inventadas para assustar pais preocupados é o que popularmente se convencionou chamar de “ideologia de gênero”, assunto que voltou à tona recentemente na comunidade de Nova Andradina devido a um artigo publicado por Wilson Aquino. No texto, Aquino começa dizendo que crianças de seis e oito anos estariam recebendo aulas de “sexo anal, ménage, zoofilia e homossexualismo”, fato chocante e provavelmente criminoso, se realmente estiver ocorrendo. Mas está? É verdade que isso acontece?

A resposta mais do que óbvia aparece para qualquer um que examine a questão com a cabeça fria: NÃO! Quem são esses professores monstruosos de que o texto fala? Pense, leitor, nos professores que você conhece. Seria a dona Terezinha, que não perde uma missa de domingo? O seu Joel, que toda eleição se candidata a vereador? O filho da vizinha, aquele rapaz tão educado que ninguém jamais viu com uma namorada? Qual deles o leitor acha que está ensinando zoofilia para crianças?

Além de não dar o nome de nenhum culpado, o texto de Aquino também esconde uma informação crucial: onde é que essas coisas estão acontecendo? Ou ainda, quando? Se ele fala com tanta certeza, ele tem o dever de denunciar perante o Ministério Público, basta o depoimento de um pai reportando o que o filho disse ter ouvido na sala de aula. Mas onde estão essas crianças?

A falta de uma indicação de quem, quando e onde nos mostra que essa história está muito mal contada. É comum dizermos que alegações precisam de provas, e alegações extraordinárias precisam de provas extraordinárias. O senhor Aquino diz coisas espantosas, que causariam choque em qualquer sociedade. Contudo, suas acusações são vazias e parecem pertencer ao mundo das fake news típicas da internet, onde qualquer um pode inventar uma história e espalhar nos grupos de whatsapp. Quanto mais impactante a história, maiores as chances de ser compartilhada. Quanto mais medo você incutir no seu público, maior será o seu potencial público.

Não estou afirmando que Wilson Aquino é um mentiroso. Não o conheço, talvez ele também tenha sido enganado por terceiros. Mas é certo que as alegações absurdas que ele fez logo no começo de seu texto não têm nenhuma base na realidade. Se tal aula tivesse de fato sido ministrada, pelo menos algumas das crianças teriam falado com seus pais. Haveria protestos, escândalo, processos. A mídia produziria incontáveis matérias sobre o acontecido.

E ainda assim teria sido um caso isolado. Ou alguém acredita que isso está secretamente ocorrendo em várias escolas do Brasil, sem que se acenda um alerta maior do que um simples “ouvi falar”? “Mandaram essa foto no meu zap e falaram que isso é de um livro distribuído nas escolas” com certeza acende alertas para pais zelosos, mas quem é que está ganhando alguma coisa assustando cidadãos de bem com histórias que não têm a menor chance de ser reais?

O artigo de Aquino não se resume a essa alegação fora da realidade. Ele continua citando uma única escritora como prova de que há um ataque coordenado “contra a família”, e menciona aulas de educação sexual como se estas fossem algum absurdo. E, por fim, cita a falsa informação de que a Suécia seria a capital do estupro no mundo, atribuindo isso – pasmem! – a uma lei que permite banheiros unissex!

Um texto como esse é uma rica fonte de análise para entender melhor como funcionam e se espalham as fake news, mas para hoje meu objetivo é simplesmente alertar o leitor para o fato de que nas Universidades não há qualquer alusão a uma suposta “ideologia de gênero”, termo saído de mentes conspiracionistas e que se popularizou na internet através da tática de espalhar medo no coração da sociedade. O medo de que nossas crianças ou famílias não estariam a salvo, de que haveria interesses nefastos se ocultando nas sombras, com fins indizíveis.

Não nos deixemos tomar pela pregação do medo, que traz consigo a dominação. Antes, abracemos a liberdade e a responsabilidade que esta exige, examinando os acontecimentos com a mente limpa de preconceitos perniciosos. Juntos, venceremos os profetas do absurdo!

*Doutor em Letras na área de Literatura Comparada, Professor de Português e Inglês, IFMS - Câmpus Nova Andradina

Este texto, não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova

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