É com lástima e tristeza que recebo a notícia de que o Bar Lanchão fechará suas portas essa semana. Uma das empresas familiares mais importantes da cidade de Nova Andradina, importante caso a ser investigado por pesquisadores da área da administração e da gestão de negócios.
Esse acontecimento trágico para a vida cultural e a boemia locais deixará não apenas saudades, mas um grande vazio na esfera pública nova-andradinense visto que, além de um negócio familiar, o Lanchão constitui-se em um grande espaço de sociabilidade e encontro dos diferentes atores sociais e políticos da localidade.
Ali se comemoravam campeonatos, discutia-se política, abrandava-se o coração. Isso, além dos grandes banquetes com delícias produzidas e a boa cerveja gelada. Seu Mauro e Dona Cida tornaram-se personagens cotidianas, mestres orientadores de muitos de seus fregueses. Enquanto se lavava um copo ou buscava-se um pedido, sempre havia tempo para uma palavra amiga, um conselho e até um puxão de orelha.
O Lanchão era uma instituição social onde até os conflitos políticos eram resolvidos e apaziguados. Apenas os frequentadores, ao olhar dos mais puritanos moradores, poderão testemunhar o que significava o café da manhã nos sábados, as tertúlias das madrugadas, o futebol de domingo, assim como as aglomerações de fregueses em busca da coxinha do Lanchão.
A cidade de Nova Andradina perde não só um lugar de emprego e renda, mas um grande ponto turístico. O Lanchão sabia receber e acolher os passantes, viajantes e novos moradores. De longe, escrevendo estas linhas, torço para que seja apenas uma mudança de localização desse território social no qual homens e mulheres de Nova Andradina se encontram independentemente das suas posições políticas e sociais, espaço em que se buscava ao máximo fazer presente a ética do encontro e do convívio.
Aquele balcão, as paredes, as dificuldades com banheiro e os gritos do Seu Mauro são parte, hoje, da memória e da história que testemunham as diferentes formas de fazer e viver na cidade. O Lanchão era o espaço universal de Nova Andradina, ele nunca perdeu em nada aos grandes bares das metrópoles brasileiras, tinha a ginga e hospitalidade do Cerrado.
Nele se acolhia o desejo de viver e estar juntos que atravessam a vida humana e que hoje encontra-se ameaçado diante de uma ordem urbana governada pela cultura do medo e pela valorização dos espaços segregados, seletivos, restritos e vigiados. O meu a grande agradecimento ao Seu Mauro e Dona Cida, pelos ensinamentos e trocas experiências que tive, debruçado no balcão e/ou sentado à porta do meu grandioso Lanchão. Perdemos o quarentão mais importante da Cidade Sorriso, como dizia o saudoso pastor Jetro. Lanchão era mais que um bar…..
*Ex-morador e cidadão honorário da Cidade de Nova Andradina
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova
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