INDEPENDÊNCIAS: o que é e para quem?

*Eduardo Martins


Por que todo dia 7 de setembro, voltamos ao ano de 1822 ou pelo menos deveríamos, pois a tal celebração dessa data nos remete ao ato fundador daquele ano. O que aconteceu naquele lugar, no tempo e no espaço? O lugar é a pequena província de São Paulo, que contava uns vinte e dois habitantes, uma currutela encrustada na Serra do Mar e margeada por brejos, lagos e a grande alagadiça várzea do Carmo que trazia muitos problemas urbanísticos anualmente aos administradores daquela cidade em época de chuvas e consequentes transbordamentos. E o não menos importante riacho do Ipiranga que cortava o centro velho da Sé, logo atrás do Convento do Carmo, uma correguinho inexpressivo e barrento que ficava numa parada entre São Paulo e Santos. Sobre a pergunta inicial nada de importante acontecia ou aconteceu nesse lugar e data que hoje o país celebra o que se convencionou chamar de Independência do Brasil.

O ano de 1822 e, sobretudo o dia 7 de setembro permaneceram inexpressivos ou sem qualquer relevância na memória das pessoas que viveram na época é certo que nem mesmo sabiam o estava acontecendo devido a falta de informação e analfabetismo do povo. É claro que o presente não funda nem tampouco inventa os fatos históricos muito menos determina condicionalmente o que será um fato político, pois é isso que o dia 7 de setembro é; uma data da nação, uma invenção técnica e iminentemente criada para que o povo nunca se esqueça de que num determinado dia, o país viraria uma nação.

Se, então, a nação nos obriga a olhar para trás e ver uma história acontecendo no seu limiar, no raiar do seu frescor e acontecimento, se a cada dia 7 de setembro somos obrigados, por força de feriado nacional, comemorar, ou celebrar o passado como ato fundador da criação de uma nação, por força de paradas militares com exibicionismo de armas de guerra, exércitos, tanques de guerra, artilharia pesada e nos pequenos municípios as famigeradas bandas marciais em que o próprio nome trás a simbologia de marcha de guerra, ainda rememorando as antigas bandas marciais que acompanhavam as Legiões romanas em seus saques e destruições das províncias invadidas e saqueadas.

Mas ainda não temos respostas satisfatórias sobre a pergunta de estudantes mais atentos, ou de pessoas curiosas em geral sobre essa data esdrúxula e tão pouco querida pelos brasileiros, uma data estranha, pode-se dizer. É estranha porque não nos diz nada sobre a noção de independência, de soberania ou de cidadania, a tal data deveria fundar aqui nos trópicos uma nação o que minimamente pressupõe cidadania, lugar de direitos, inclusão e participação nos negócios e nas decisões de justiça, por exemplo.

Ainda assim a pergunta continua sem resposta, continua um enigma, e, portanto a data celebrada não passa de um dia amorfo e sem graça. Mas que as lideranças políticas; prefeitos, governadores e o presidente tentam recriar uma festa, uma simbologia para lembrar ao povo que esse dia foi importante e que se renova, afinal, celebrar e relembrar ou comemorar um acontecimento muito importante, como o nosso aniversário, por exemplo. Obrigam-se as escolas públicas e privadas e comemorar a tal semana da independência, aqui destaco o verbo obrigar, por se tratar de uma data do calendário escolar, a tal semana da pátria. A educação tenta cumprir assim o seu papel de fazedora de pequenos cidadãos, ou patriotas, que muito simbolicamente marcham com espada e chapéu de papel em alusão a uma sociedade militarizada, que prefere marchar a refletir, a discutir e problematizar o passado e tentar buscar nele respostas para perguntas do presente; como por exemplo, quem somos e por que somos, o que é ser brasileiro, o que significa o termo nação. Nesse pretexto usam a bandeira como instrumento catalizador de nacionalistas, se apropriam da bandeira para fins demagógicos, populistas e alienante. Mas que no fundo nada significa de nacionalismo ou patriotismo, vide que quem se apropria da bandeira do Brasil para atos políticos, via de regras, é uma elite conservadora, de extrema direita e que defende pautas que inclui a defesa de ditaduras até a tortura. O mesmo vale para o ato de cantar o hino nacional nas partidas de futebol, uma cerimônia simplesmente medonha, enfadonha, sem sentido prático nenhum.

Acho que não temos a resposta do porque se comemora o dia 7 setembro, mesmo por que muito pouco se fala do ano de 1822 e do lugar do acontecimento, senão, algumas alegorias poéticas que aparecem no estranho hino nacional, mas como eu disse é apenas uma canção, uma poesia ou um texto que cumpre função de ser um hino nacional e portanto não deve ser interpretado literalmente, é obvio.

Outro símbolo é a belíssima pintura do Pedro Américo “Independência ou morte” que representa D. Pedro I montado em um cavalo com sua espada em riste supostamente gritando “independência ou morte” às margens do “rio Ipiranga”, é claro que D. Pedro I esteve naquele lugar no dia anunciado, 7 de setembro de 1822, há evidencias históricas que ele também disse “independência ou morte” nesse caso o pintor Pedro Américo está correto, pois fez longa pesquisa sobre a temática da sua pintura. Porém, a ordem que as coisas aparecem no quadro é, sobretudo, estética, pertence ao universo da arte, da alegoria, do maravilhoso e não da História, quero dizer que o pintor está correto sobre o acontecimento, mas que não tem a obrigação de dizer a verdade sobre ele. Cabe ao historiador dizer a verdade sobre os acontecimentos e aos artistas retratar o mais belo possível.

O que temos a obrigação de avaliar nessa pintura é o seu valor estético e jamais histórico. Trata-se apenas de uma pintura que tentava representar o império brasileiro e seu príncipe regente e foi feita na Europa no ano de 1888, portanto, 66 anos depois do evento do dia 7 de setembro de 1822. Trata-se de arte e não de História, deve ser analisada esteticamente e nunca como um fato histórico. Ao tentar aproximar essa pintura ao fato histórico o que se pretende é dar contornos míticos, maravilhosos, belos e artificiais e, sobretudo, pacífico resumindo a independência a um “grito” àquilo que foi de fato um acontecimento dramático e cheio de contornos revolucionários, violento, sangrento e muito controverso.

Assim o silêncio é sepulcral, bem como a tentativa de esconder e mascarar a realidade de uma data que pouco ou nada representa a noção digna e inclusiva de independência quer do Brasil, quer do povo. Tem-se que esconder que a tal independência não representou e ainda não representa quase nada em termos de direitos sociais muito menos humanos para a esmagadora maioria da população brasileira.

Por fim, mais do que trazer respostas e explicar prontamente o que representa o dia 7 de setembro, tentei provocar um pouco a imaginação sobre essa data que ao contrário de representar a independência do Brasil, fica a cada dia mais claro e evidente a dependência dessa nação ao capital estrangeiro, sua submissão aos Estados Unidos, a entrega dos bens minerais e naturais ao grande capital financeiro e rentista, a entrega da riqueza nacional (dívida pública) aos grandes bancos privados a juros exorbitantes, destruição do BNDS, privatização dos bancos públicos (Caixa e BB), a entrega do petróleo, sucateamento das universidades públicas, entrega das matrizes energéticas, entrega do espaço aéreo, submissão ao exército estadunidense, doação de base militar, escravização do próprio povo pela uberização e retirada de todos os direitos trabalhistas, sociais e humanos, enfim, de qual independência estamos falando? O que é independência? Quem de fato é independente?

Deixo aqui estas indagações como forma de provocação para que no próximo ano no dia 7 de setembro você não seja mais uma vez obrigado a ser um soldadinho com espadinha e chapéu de papel, muito menos reproduzir a pintura do Pedro Américo que nada significa para a independência, senão uma falta de imaginação histórica ou conhecimento sobre a história do seu país.

*Docente do curso de história na UFMS, campus de Nova Andradina

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova

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